CULTURA

Estação do Cordel celebra Manoel do Coco, o encantador de gente


Texto: Andrielle Mendes
Fotos: Karla Burgoa

As cadeiras alugadas não foram suficientes para acomodar o público que compareceu sexta-feira (18) à Estação do Cordel, na Cidade Alta, para homenagear Manoel do Coco e ouvir as cantorias que embalaram as memórias do ativista da cultura popular que se tornou um dos maiores repentistas do país ao cantar na televisão aberta, em rede nacional, o Nordeste profundo – aquele que muita gente olha e não vê.

Manoel do Coco nasceu em um Nordeste descalçado, famélico, analfabeto, em 1947. Nasceu nas entranhas do Rio Grande do Norte, em um município chamado Barcelona, onde até hoje se planta palma para lidar com a secura da vida. Manoel menino. Três irmãos. Um pai e uma mãe. Uma casa. Estrada. Depois só uma mãe. Abandono do pai. Quatro bocas. Esmola. Depois, pão com cheiro da manhã no fim da tarde. O menino a quem faltou pão virou entregador para que o pão não mais faltasse. Manoel menino-homem, aos 12, em São Tomé.

Oito anos depois de percorrer a pé a distância entre Barcelona e São Tomé com a sua família, voltou a espremer a sua vida dentro de uma mala e despediu-se desta vez de sua mãe Maria e seus três irmãos para percorrer, novamente a pé, a distância entre São Tomé e Natal. Não tinha muitos pertences, mas Manoel se pertencia e isso, para aquele momento, o bastava.

Em Natal, empregou-se numa padaria e passou a viver da produção de pães. Não mais entregava. Agora os produzia. Ao fim do expediente, vestia-se de roupas de sacos de farinha engomados para ouvir as cantorias em bairros próximos. Manezinho, como os amigos o chamavam, sempre soube que nem só de pão vive a mulher e o homem. Mas de toda palavra que sai da boca do estômago antes de passar pela garganta. Quem duvida que para enganar a fome Manezinho a distraísse com versos improvisados?

Custou muito para que ele encontrasse outra finalidade para as palavras tão encantantes que encantavam até a fome. Manoel, que havia herdado de sua mãe os sonhos descalçados, passou a se dedicar integralmente aos versos só a partir dos 40 anos, tornando-se um dos maiores repentistas brasileiros e propagadores da cultura popular nordestina, sem frequentar escolas por causa de seus pés nus.

“Um artista verdadeiro”, como diria o poeta, escritor e dramaturgo Ariano Suassuna, capaz de vencer desafios de repentistas já consagrados na TV aberta, com direito a horário nobre e tudo o mais. Começou embolando na praia, em festas das empresas onde trabalhava, nas casas de amigos, em restaurantes, em casas de show e depois apresentou-se na TV para todo o Brasil nas emissoras Bandeirantes, Rede TV, Record e na Rede Globo, quatro delas no programa do Faustão.

Manoel foi os olhos e a boca do Nordeste. Anunciou a riqueza da região sem deixar de denunciar a sua pobreza. Aprendera desde muito cedo a transmutar pranto em canto e a transmitir através do repente a força e a resistência de um povo que se verga, mas não se dobra.

O encantamento (a morte) de Manezinho completa quatro anos agora em janeiro de 2019, mês do encantamento também do Ministério da Cultura, que inaugura um período de insegurança financeira para os milhares de pontos de cultura espalhados pelo Brasil, projetos de impacto sociocultural que atendem crianças e jovens prioritariamente em comunidades pobres. Quantos outros Manezinhos vivem por esses brasis afora sem oportunidade de identificar, desenvolver e manifestar a sua criatividade?

A história de Manoel do Coco foi rememorada sexta-feira na Estação do Cordel para que o Nordeste não esqueça que “não ter” não pode ser argumento para “não fazer”. Mas muito mais, para que não esqueça que fazer é mais fácil, quando se tem ao menos o pão no fim de cada dia.

De pés descalços se aprende a ler, como demonstrou Paulo Freire, cujo programa de ensino beneficiou Manezinho – e outros tantos potiguares -, durante os sete dias em que ele pôde conciliar o trabalho e a escola. De pés descalços se aprende a improvisar, como mostrou Manoel do Coco, um dos maiores representantes da cultura potiguar e nordestina. Mas de pés descalços é mais difícil alcançar os pés que nunca se sentiram descalçados. Já dizia a ambientalista Marina Silva, anos atrás: “temos as mesmas capacidades, mas não as mesmas oportunidades”.

Segundo levantamento da Tendências Consultoria, a pobreza extrema cresceu em 25 estados brasileiros entre 2014 e 2017, sendo o Nordeste a região do país que mais sofreu com o aumento da miséria. Não se surpreenda se no coração do Rio Grande do Norte encontrar um manezinho distraindo a fome com as suas histórias de improviso. O desafio de um país tão criativo continua sendo alimentar os sonhos, sem deixar de alimentar o estômago para que ninguém mais morra sem expressar a sua criatividade.

O Brasil é considerado um dos maiores mercados para a economia criativa entre os países emergentes. Dados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) apontam que, em 2015, o setor cultural movimentou R$ 155 bilhões no país, isso equivaleria à construção de aproximadamente 2 mil casas populares. Esse valor deve ser muito maior agora.

Manoel do Coco, com toda a sua sabedoria dizia, que em meio a tantas palavras algumas combinam com outras e outras não. O repentista, dizia ele, tem em sua mente a missão de juntar e formar no meio de tantas palavras aquilo que quer falar, mostrar tudo que vem de dentro deixando as rimas falarem. Um Brasil enriquecido, por exemplo, não deveria combinar com um Nordeste empobrecido.

Talvez isso faça um pouco de sentido para Manoel, que escolheu para o seu penúltimo CD o título Grito do Povo, produzido em 2013, com as reivindicações dos brasileiros, suas necessidades e anseios, enquanto o seu último disco foi batizado de Sacanagem de Manoel do Coco. Ao que se poderia acrescentar: que se encantou justo quando o Nordeste mais precisava dele. “Manoel do Coco, está difícil ser você”. Mas a gente vai tentando. Os artesãos, artistas, criativos, que alimentam a economia criativa, ligada à arte, à cultura, à artesania, procuram sempre incentivar outros artistas, artesãos e criativos.

Não é só um jeito de fazer. É um jeito de viver. É por isso que a economia criativa, muitas vezes, é também colaborativa, sustentável e solidária. A criatividade não é um recurso finito nem tampouco está restrita a uma classe social, a um gênero, a uma faixa etária, a um território. Como habilidade que é, pode ser incentivada. Todos podem incentivá-la, investindo tempo, atenção e dinheiro na criatividade das pessoas, principalmente, daquelas que vivem diretamente daquilo que criam. A criatividade de Manoel do Coco nasceu com ele, mas cresceu, porque ele encontrou apoiadores, incentivadores e financiadores.

 

 

 

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