OPINIÃO

Estado de exceção subjetivo

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O país passa por um estágio na história, particular, um período desencadeado pelo conjunto de novas ferramentas comunicacionais, métodos e práticas políticas ainda não experimentadas nas últimas décadas. O motivo da novidade é bem simples a princípio. Não haviam nas décadas anteriores estas ferramentas, nem sempre éticas, a exemplo das fakenews, e nem ao mesmo o espírito fundamentalista como determinante no novo embate contemporâneo.

Não consigo entender que vivamos em uma democracia plena, não sinto, nem consigo referência estável e homogênea na atual condição conjuntural como democracia estruturada. Porém, também não vivemos uma ditadura, nem mesmo fascismo, não ainda, espero que nunca mais.

O fato é que há uma categoria cheia de peculiaridades nunca experimentadas antes. Vou denominar aqui como “Estado de Exceção subjetivo” este ambiente político que se forma e está amparado no processo de mitificação ideológica do Estado, a rigor, fundada na última campanha presidencial. Foi a partir do uso do mito como fundamento, e não só referente ao título dado ao candidato, mas, especialmente categorizando um padrão de relações humanas e políticas baseadas na forma do imaginário, na crença subjetiva, nos mitos religiosos e valores ditos tradicionais de forma extremada. Percebe-se, uma vez que o universo mítico não apresenta meio, que expressa-se nas extremidades representadas por um Deus em um extremo e um demônio em outro. Daí uma crescente campanha de ódio político e extremação do debate, a intolerância como característica de uma realidade mitificada entre heróis e bandidos, entre time querido e time adversário. Figuram como atores no atual Estado um capitão que não o é na realidade, super juízes elevados à condição superior ao estabelecimento da justiça teórica e fundamentada em mitos simbólicos demonizados à condição de definir partidos como vilões com seus partidários generalizados, rotulados e levados a condição criminosa, sem necessidade ao menos, de argumento que o valha.

Essa condição de Estado suprimido à revelia de condicionantes sociais, históricos, técnicos e analíticos não são condições liberais, mas o engendramento de uma política difusa, imprecisa e fundamentada no mítico senso, um Estado de exceção subjetivo.

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O maior problema em questão, contudo, se ampara mesmo é na possibilidade de muito se justificar aquém das condições objetivas, da realidade pragmática e dos conceitos históricos, científicos e do conhecimento, ainda mais, à margem de qualquer conduta ética com base nestes preceitos.

Este novo Estado desafia as formas de oposição, que poderíamos chamar (já que está na moda) politicamente corretas e apesar de não ser propriamente fascista e ditatorial, fragiliza a condição social ao permitir pairar sobre a sociedade brasileira sentimentos e defensores desses valores, uma vez que no Estado de espírito mítico tudo pode ser possível ou desconstruído de forma mágica.

Entenda que não falo que o estabelecimento do mito nas narrativas e proposições sociais sejam simplesmente equivocadas, acredito na função do universo mítico como parte da gênese humana e, assim sendo, da composição em toda ordem social, porém, a exacerbação de conceitos subjetivos no Estado, expõem todo o conjunto de políticas públicas à instabilidade funcional e ética do ponto de vista humanista.

Os riscos estão postos onde os ritos desequilibram, vivemos a condição realizável da proposição sem o amparo das leis desenvolvidas historicamente, sem a condição da análise técnica sobre as ações públicas como princípio, ainda, sem cientificidade como condicionante a gestão do desenvolvimento de um país, com raras exceções, caminha no terreno pantanoso do imaginário dominante.

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