CULTURA

Estátuas da Igreja do Rosário foram retiradas para evitar maiores danos, explica Arquidiocese

Atualizado às 13h desta terça-feira, 28.

Uma foto que mostra as estátuas dos negros da Paróquia Nossa Senhora do Rosário dos Pretos decapitados circula nas redes sociais desde ontem. Nas publicações, usuários questionam quem teria danificado o patrimônio histórico e se a situação se trataria de algum crime de racismo.

Segundo informações fornecidas pela assessoria da Arquidiocese de Natal, que administra o templo, as peças foram retiradas a pedido da administração do local, por precaução. Isso porque as estátuas apresentavam rachaduras nas bases e temia-se que sofressem maiores danos.

À Saiba Mais, o padre Valdir Cândido de Morais, responsável pela igreja, conta que a remoção das estátuas para a parte de trás do templo no fim de agosto. A decisão foi tomada após uma criança encostar em uma das peças que caiu imediatamente sobre outra. Com medo de outros acidentes e já tendo observado a falta de uma base de sustentação na estátuas, o pároco decidiu deitá-las no chão.

As cabeças dos monumentos também não foram arrancadas, mas saíram assim que as esculturas foram estendidas no piso. Isso porque o membro estava preso ao tronco das imagens somente por um cano simples, explica Padre Valdir.

“Não teve vandalismo. As cabeças, quando foram tirando as imagens, elas ficavam seguras somente num pequeno cano de água. Resultado: quando fomos retirando, três cabeças saíram”, remonta.

O vigário conta que as peças foram removidas para um galpão coberto, localizado em frente à igreja, ainda na manhã desta terça-feira. Ele defende que a imagem a circular nas redes sociais foi registrada por alguém que não se preocupou em saber o contexto da situação.

“O tempo fez esse trabalho com elas, alguém fez a foto e distribuiu, fazendo esse estrago. Uma postagem irresponsável de alguém que mora nas imediações”, defende-se. Padre Valdir diz estar em busca do artista responsável pela construção das estátuas, que ele ainda não sabe quem é, para revitalizar as imagens.

A Igreja do Rosário é tombada pela Fundação José Augusto desde 1987, pela importância cultural para o Rio Grande do Norte. O lugar é a segunda igreja mais antiga da capital, e foi construída por pessoas escravizadas no início do século XVIII.

O templo católico também está na lista de monumentos e espaços público tombados pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Segundo o relato histórico, a igreja atendia aos menos favorecidos, como pessoas escravizadas, negros que conseguiam liberdade e a população mais pobre. O templo ainda está numa localização privilegiada da cidade, com vista para o Rio Potengi.

Em nota, a Fundação José Augusto diz que aguarda visita técnica do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) ao local para averiguar a situação. A mensagem informa que o tombamento nacional pelo IPHAN obedece a uma hierarquia legal sobre o tombamento realizado pelo Governo do Estado em relação ao imóvel. Por isso, a FJA aguardará o parecer do órgão nacional para tomar providências cabíveis ao caso.

A Saiba Mais entrou em contato com o IPHAN e aguarda respostas sobre o assunto.

Ao todo, seis estátuas compõem o conjunto de imagens que ficavam posicionadas na entrada da igreja.

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Saiba Mais: As estátuas decapitadas e o racismo simbólico

 

Falta de proteção ao patrimônio

Segundo informações do G1, somente em abril, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos foi arrombada três vezes em 10 dias e teve objetos litúrgicos, como castiçais e cálices, levados pelos criminosos.

Nas ocasiões, imagens sacras foram quebradas durante os crimes que ocorreram entre 20 e 30 de abril.

Na época, fiéis realizaram campanha de arrecadação de recursos para comprar novos materiais litúrgicos para serem utilizados nas celebrações.

Após o ocorrido, Padre Valdir diz que a Arquidiocese instalou sistemas eletrônicos de segurança na parte interna e externa do templo para evitar novas invasões.

Repercussão

“Depredação ou abandono?”, questiona a ex-candidata à vereadora Aline Juliete em perfil pessoal do Instagram.

“É estarrecedora a imagem das estátuas dos negros jogadas no chão, algumas decapitadas. De quem é a responsabilidade desse ato racista em Natal-RN? A história dos negros merece respeito, nossos monumentos também!”, defende.

 

 

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