CIDADANIA

Estudo aponta que mortes por arma de fogo estão presentes em todas as regiões de Natal

Ao contrário do que muita gente pensa, as mortes resultantes do uso de arma de fogo não acontecem apenas nas zonas norte e oeste de Natal. Na verdade, elas ocorrem em todas as quatro regiões da capital potiguar, segundo levantamento realizado como parte da pesquisa de conclusão do mestrado em Demografia de Pedro Henrique Oliveira de Freitas, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

“Não é algo isolado em algumas regiões, há mortes em todas as partes da capital e em 80% dos homicídios, o agressor utilizou arma de fogo como instrumento. Apesar dos números menores das zonas leste e sul, também se mata com arma de fogo nesses outros locais”, aponta Pedro.

Outro dado relevante encontrado no estudo demonstra que os crimes são mais frequentes em áreas onde o Estado está ausente. As mortes por arma de fogo acontecem em maior quantidade nas regiões onde há um menor número de equipamentos urbanos, como praças, hospitais, postos de saúde, escolas e creches (públicas ou privadas), além de equipamentos de segurança pública.

“Bairros como Tirol e Petrópolis, que têm um menor número de casos de homicídios, são áreas com muitos equipamentos urbanos, o que ressalta a importância da presença do Estado”, constata o pesquisador.

Nem mesmo o maior isolamento social durante a pandemia foi suficiente para reduzir os Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI’s), sigla que engloba as mortes provocadas por homicídio, latrocínio, tráfico de drogas, embates com a polícia e feminicídios, entre outros. Depois de 2017, ano da rebelião em Alcaçuz e de um pico de 605 mortes por arma de fogo em Natal, a capital potiguar apresentou queda na estatística desse tipo de crime em 2018, quando foram registrados 484 óbitos. Em 2019, houve nova queda com 284 mortes por arma de fogo, de acordo com os dados divulgados pelo OBVIO (Observatório da Violência do Rio Grande do Norte). No entanto, apesar do maior isolamento social iniciado em 2019 com a pandemia do novo coronavírus, as mortes por arma de fogo aumentaram 4,2% em 2020, com 296 óbitos apenas em Natal.

“O aumento pode parecer pequeno, mas é uma alta que interrompe uma tendência de queda dos últimos anos e ocorre num ano de pandemia, quando as pessoas passaram mais tempo dentro de casa. Mesmo diante do contexto pandêmico, não houve mudança espacial na distribuição dos homicídios. Era de um jeito e continuou da mesma forma depois da pandemia. As facções criminosas não tiraram férias e os conflitos com a polícia, o tráfico de drogas e a disputa por território continuou acontecendo”, explica Pedro.

Mapa de Natal com manchas nos bairros onde ocorreram mais homicídios em 2019

Mapa de Natal com manchas nos bairros onde ocorreram mais homicídios em 2020

Números de guerra

Infográfico: Atlas da Violência 2021

Em 11 anos, o Brasil teve quase meio milhão de mortes provocadas pelo uso de arma de fogo, num total de 439. 160 vítimas. Desde 2009, uma média de 109 pessoas morrem por dia no país em resultado do uso de arma de fogo. Para termos uma noção comparativa, num dos conflitos mais sangrentos da história, os Estados Unidos perderam na Segunda Guerra Mundial 291.557 soldados, de acordo com o Departamento de Assuntos de Veteranos.

A atual política de incentivo à aquisição de armas de fogo pela população, defendida pela presidência da República, não é vista pelo pesquisador da UFRN como a melhor opção para reduzir os índices de violência no país, no Rio Grande do Norte ou em Natal.

 “A arma de fogo é o principal meio empregado nesses crimes e, até por isso, preocupa. Não é apenas pela violência interpessoal [intencional entre pessoas], mas pelo embate entre facções. Evitar a entrada de armas, enfraquece esses grupos e facilita o trabalho da segurança pública. No entanto, é importante frisar que a violência por motivos fúteis, são com armas de fogo. Às vezes, durante uma discussão simples no trânsito, a pessoa tem uma arma no carro e mata. Vemos que ela [arma de fogo] representa mais de 80% das mortes em Natal”, destaca Pedro Oliveira.

Gráfico com as CVLI’s em Natal entre 2011 e 2020, segundo os dados do OBVIO
Mortes por arma de fogo em Natal por ano e região I Dados da pesquisa fornecidos pelo autor
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