OPINIÃO

Eu e Stalin – Parte 2

Semana passada, dois desses intermináveis e poucos frutíferos debates de Facebook mostraram um padrão repetido que já me entedia; Discute-se política local (estadual e nacional) e alguém – geralmente bolsonarista e/ou de Direita/Conservador – pula para falar de Marx, Guerra Fria, Hitler, Comunismo. Antes isso me aborrecia. Hoje me leva ao tédio. Sobre os casos práticos, no post de um amigo o debate era sobre Flávio Dino e um sujeito de repente colocou Kim Joon e Coréia do Norte no assunto. Eu saí. Em outro post de uma amiga, o debate estava até bem razoável sobre papel da Esquerda e contradições políticas quando um amigo, não meu, dela, me perguntou em tom de acusação sobre Mao Tsé Tung e os fuzilamentos de Fidel em Cuba. Saí do debate e para não correr risco bloqueei o cidadão. Adoro debates, mas, alucinação, nunca.

Aqui neste espaço escrevi há quase um ano um texto intitulado “Eu e Stalin”, onde relatei fato que aconteceu comigo durante o processo de Golpe contra Dilma Rousseff, em 2016. Uma amiga de bate-papo sobre a vida e de cerveja no Beco da Lama que vinha dando uma estranha guinada à Direita postou uma fake news das brabas no perfil do Facebook. Comentei que não era verdade, mandando links do fato real. Ela respondeu: “E a Petrobrás, é fake news também?”. Respondi pacientemente que os problemas na Petrobrás não eram culpa de uma pessoa e nem de um partido e que vinham de décadas, argumentei, expliquei. E no comentário seguinte ela atacou: “E Stalin? O que me diz de Stalin?”. Aí me aborreci, comentei que estava saindo na conversa e que desfaria a amizade, o que efetivamente fiz.

Uma amiga me cobrar pelos erros e posturas de Josef Stalin? Isso porque sequer comentei nada sobre ele em nenhuma mídia, inclusive, para desgosto dos meus amigos comunistas “raiz”, eu tenho ojeriza por Stalin.

E semana passada em pleno 2020, acabei cobrado pelas mortes da Revolução Cubana e pelo “paredón”. E terei de responder sobre as decisões cruéis de Mao, em quem também não nutro nenhuma simpatia.

Em algumas oportunidades, em conversas privadas com amigos de Direita (em especial os “cristãos novos”) quando leio que eles escrevem, ao se referir, por exemplo, a Lula, Fidel, Chavez etc, como “vocês”, recordo sempre aquela cena clássica de “Os saltimbancos trapalhões” com os artistas cantando “Todos juntos/somos fortes/somos flecha/somos arco…”, mas em vez de Didi, Dedé, Mussum, Zacarias e Lucinha Lins à frente, imaginando eu, Fátima Bezerra, Lula, Maduro, Bernie Sanders, Flávio Dino, Boulos, todos juntos alegremente indo implantar a ditadura comunista-bolivariana-gayzista anti-família.

Entendo que a polarização política leva a um tom mais agressivo e a exageros, mas continuo tendo dificuldade em entender como pessoas letradas embarcam nessa de associar a Esquerda ao Comunismo, o Comunismo à imagem de pessoas-líderes-símbolo (mesmo que não sejam comunistas, como Lula) e por sua vez me colocarem (já que sou, digamos, comunista) responsável pelos erros, crimes, baixezas, de todos eles.

Para mim já não está dando. Não brigo mais tanto pelas redes sociais nem em mesas de bar como antigamente. Mas, também não tenho mais paciência para digerir isso.

A propósito, os amigos que durante a campanha estadual de 2018 me mandavam zaps perguntando como seria se Fátima Bezerra abrigasse aqui no RN guerrilheiros cubanos e venezuelanos, foram todos devidamente bloqueados e limados de minha vida social. Um pouco de loucura é saudável e até necessária, mas desconexão com a realidade, não. E, repito para os fins que se fizerem necessários: Não tenho nada ver com Stalin.

 

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