OPINIÃO

Eu e Stalin…

Dia desses li um debate insólito no Twitter da jornalista Cynara Menezes, do ótimo blog Socialista Morena, com os bots e odiadores habituais, quando ela se aborreceu com os que a criticavam pelas posições sobre a Ditadura Militar e sobre as posturas do presidente Jair Bolsonaro. No meio do debate ela escreveu, visivelmente irritada: “Eu falei que a maioria dos autores de chacinas no mundo HOJE é de extrema-direita. isso são FATOS.  Os reaças não conseguem rebater e ficam citando Stalin, que MORREU há 66 anos. Stalin tá morto, babaca”.

Sim, para argumentar com Cynara, a estavam questionando sobre Stalin, o controverso líder soviético dos anos 20 aos 50, que ao mesmo tempo que ajudou a vencer Hitler e desenvolver a então URSS foi responsável por milhões de mortes e perseguição implacável a adversários.

Lendo a querela, acabei lembrando que Stalin já foi causa de perdas de amizades e debates acalorados meus nas redes. Não que eu tenha dado opiniões polêmicas sobre ele ou mesmo o colocado em pauta, por que eu usaria um antigo líder soviético/russo em debates sobre o problemático Brasil destes anos? Mas, o fato é que, como aconteceu com Cynara, acabaram me colocando no meio do balaio que o Josef.

Dos três ou quatro episódios, o mais emblemático envolveu a mim e uma então amiga frequentadora de Beco da Lama e Ribeira, por quem eu tinha carinho apesar de saber das posições conservadoras crescentes dela. Durante aquela traumática campanha de 2014 ela postou uma fake news contra Dilma Rousseff (aquela famigerada foto montagem de Dilma sentada com um fuzil ao lado). Educadamente expliquei a ela que se tratava de uma óbvia mentira, uma montagem.

Ela retrucou postando outra fake news, esta envolvendo Dilma e Lula com assassinatos e com o paredão de Fidel Castro. Novamente expliquei que era uma fake news e que as informações vagamente verdadeiras estavam descontextualizadas.

“Então você vai me dizer que Dilma e Lula não tem envolvimento com a morte de ninguém?”

“Não, querida”, respondi, “que eu saiba eles não estiveram envolvidos com morte alguma. Mas, se você sabe algo sobre isso, é bem grave, envie o material para a Polícia Federal e MPF”

“Só falta você dizer que Che Guevara era santo e nunca matou ninguém”, escreveu, tudo isso nos comentários no modo público na timeline dela.

“O que tem a ver Guevara com a campanha no Brasil e com nossa discussão?”

“E Stalin? E você e Stalin?”, continuou.

“Que diabos eu tenho a ver com Stalin?”.

“Ele matou milhões de pessoas, só falta você dizer que também é mentira”.

“Sei que ele matou pessoas, tanto nos Gulags como até mesmo Trotsky, mas o que tenho eu a ver com Stalin?”

“Até foto de Stalin você já colocou no seu Facebook”

“Eu? Jamais coloquei foto dele nem de qualquer outro líder soviético, o que eu tenho a ver com a URSS?”

“Ah, você e Stalin… sei”.

Aturdido, fui conferir minha timeline para ver se um outro eu ao estilo de “Clube da luta” havia feito a tal postagem. Voltei meses antes até que quase um ano antes achei uma postagem minha com foto de… Nietzsche. Sim, a amiga havia confundido o filósofo alemão com o líder soviético.

Achei melhor não comentar isso com ela, principalmente em modo público, como estávamos, e, após reler o diálogo bizarro achei por bem desfazer a amizade. Ela jamais mandou convite de volta e por isso a coisa ficou. Quando nos encontramos em eventos culturais, que ela como eleitora de Bolsonaro e antipetista vai cada vez menos, apenas nos cumprimentamos com a cabeça e arriscamos um boa noite vago. Enfim, faz parte da vida.

É de um non-sense tão grande ter que responder pelos crimes de Stalin (ou de Fidel, Guevara, Mao Tsé Tung) quanto se cobrar de um capitalista, seja ele ideológico ou de um pequeno empreendedor, pelos crimes do capitalismo, seja os operários mortos na construção do Empire State e Torre Eiffel ou os mortos nas guerras de Reagan e Bush pai e filho.

Mas até hoje não entendi o que a ex-amiga quis dizer exatamente com aquele  “Ah, você e Stalin… sei”. Será que ela imaginava que eu tinha quadros e fotos do Josef pela casa e o ficava admirando ao caminhar pelos aposentos. Ou que frequentava reuniões secretas com comunistas fanáticos para cultuar o homem? Será que ela achava que eu tinha fantasias eróticas com aquele bigode?

Paciência. A campanha e a amizade se foram, o resto é história. Stalin e qualquer outro líder – de Esquerda ou de Direita – que paguem pelos seus crimes.

Mas, pensando bem, o bigode de Stalin era sexy mesmo…

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