OPINIÃO

Eu não queria que você se apaixonasse

Ele olhou com um calculado pesar e justificou-se:

Eu não queria que você se apaixonasse.

Ela espantou-se, mas, por apego ao bom humor, não questionou o absurdo diagnóstico. Não, nunca esteve nem perto disso que chamam de apaixonada. E diante da patética situação de terminar algo que sequer havia começado, passou até a questionar se alguma vez tinha, de fato, caído de amores por alguém.

No momento não amava ou odiava homem algum. Estava apenas entediada. Acionava a memória, mas não entendia a conclusão a que ele tinha chegado. Apaixonada? Chegou a cogitar que ele fosse mesmo um tipo de gênio. Uma espécie mais avançada de outro planeta, capaz de decifrar por completo os mistérios do amor.

Era isso. Vivia um dilema: ou estava diante de um gênio ou de um imbecil. Meios termos não eram uma possibilidade. A primeira alternativa não era das mais críveis. Não há muitos gênios por aí, nem mesmo os incompreendidos, e o tal moço em particular fazia-se compreender muito bem. Suas intenções eram tão claras quanto eram absolutamente nada.

Longe de ser um problema, era justamente o que ela buscava no momento. Um deserto de ideias e um oásis de superficialidades. Chega de conversas profundas, de discutir política, deixa pra outro dia. Queria uns beijos, um chamego ou outro e só. Mas agora estava ali, recebendo a piedade de um íntimo estranho de quem não sabia quase nada.

Então, entregou-se ao revirar de olhos. Não de prazer, mas de puro desdém. Revirou-se pela certeza de estar diante de um idiota. No entanto, as boas maneiras, e também certa preguiça, não lhe deixaram dizer o que havia constatado. Ele realmente acreditava na nobreza de seus gestos, no abnegado cuidado para evitar que ela se apaixonasse.

Enquanto ela calculava se era um caso de ingenuidade ou excesso de autoestima, curiosamente, foi tomada por pena. Era um tonto. Tinha tanta vergonha que em seus pensamentos imaginava-se derretendo e evaporando aos pés dele. Tudo para sumir ou acabar com aquele papo de uma vez.

Então, no duelo entre os dois desinteressados, porém piedosos, ofereceu a outra face:

Vou sentir sua falta. Mas respeito seu espaço. Tinha esperança de que a gente desse certo, não vou mentir. Fica bem, tá?

Disse tudo num só fôlego e saiu. Precisava tomar distância logo. Desabou num riso fresco. Por ora não estava entediada, tampouco apaixonada, mas tinha o coração em festa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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