OPINIÃO

Eu só acho engraçado

Aconteceu. Em meio aos caminhos estreitos dessa Natown querida, pelos quais nos esgueiramos distraídos, caminhando por funis sociais que tornam quase inevitáveis um encontro posterior, deparei-me com ele: o desafeto.

Não tinha como fugir, nem fingir que não vi. Até porque, os olhares se cruzaram involuntariamente assim que adentrei a loja de departamentos que dava acesso aos corredores do shopping.

Frente a frente comigo, foi fácil pra ele me abordar. Não me confrontou, não exigiu satisfações, nem cobrou uma retratação, tampouco me agrediu fisicamente. Pior, muito pior: pediu desculpas.

Que covardia! Por que, meu Deus? Por quê?! Que direito ele tinha de tentar roubar minha mágoa, de tirar de mim o meu rancor? Como pode isso? Não se respeita mais nada hoje em dia!

Não tive alternativa que não fosse perdoá-lo. Afinal, era isso que se esperava de uma pessoa justa e ponderada, como eu gosto de acreditar que sou: ter um gesto de generosidade, dar uma demonstração de grandeza, praticar o perdão como convém a um homem bom e, vá lá, magnânimo. Então, por ele ter dado mostras de humildade e ter vindo me pedir expiação de seu erro, concedi-lhe esta dádiva, Amém, vida que segue, saravá, salve salve!

Só que…

Quer dizer…

Assim…

EU SÓ ACHO ENGRAÇADO… que ele pediu desculpas meio a contragosto, né? Não foi assim um pediiiido de desculpas, desses oficiais, protocolados em cartório, reconhecidos pela ONU, com testemunhas, transmissão  ao vivo, com leitura em voz alta do William Bonner no Jornal Nacional. Não, nada disso. Foi sozinho comigo, sem ninguém vendo. Mas na hora de esculhambar, difamar, aí foi com Deus e Mark Zuckberg olhando sua postagem mentirosa. Mas tudo bem. O que passou passou, bola pra frente, eu já perdoei. Afinal, a gente se conhece há muito tempo, né?

Eu só acho engraçado que antes de compartilhar uma história que nitidamente comprometia minha imagem, a pessoa não lembrou que conhecia, né? Podia ter ligado, mandado uma InBox, vir de Zap, uma Direct Message, uma carta registrada com aviso de recebimento, mandado um recado por aquele despachante que é sósia do jogador Márcio Araújo e trabalha no cartório do Shopping Cidade Jardim. Quer dizer, maneiras de falar comigo não faltam. Não sou exatamente um agente secreto da CIA, do Mossad ou da KGB. Mas o bonito falou comigo? Não. Preferiu fazer o mal sem olhar al qual. Mas, OK. Deixa pra lá, pois como ele mesmo disse ao pedir desculpas: “ele se excedeu” e “não sabia que a situação ficaria séria”.

Certo, certo, compreensível… eu só acho engraçado que hoje em dia é assim: a pessoa destrata, humilha, expõe, faz o diacho com a outra e depois sai dizendo: “não, veja bem, eu me excedi”. Se excedeu, né, seu galado?! Perdi o emprego, a namorada, o respeito dos meus pais, a vaga na seleção do mestrado em biologia marinha com ênfase na musicoterapia e o efeito na audição de Los Hermanos na reprodução dos peixes-boi, virei meme, e pra você foi só isso mesmo, né? “Não, porque eu me excedi!” Ah, vá pra porra! Mas, vamos relevar, né? É Natal, precisamos ser justos, tolerantes e amáveis com as pessoas, praticando sempre a aceitação total do outro, do diferente…

Só acho engraçado que nas suas redes sociais, respeito é artigo mais raro que castanha de caju no inverno, né, amigo? Fica lá postando conteúdo misógino, compartilhando meme de Bolsonaro, pedindo intervenção militar, defendendo cura gay, dizendo que não existe racismo, que Nazismo é de esquerda, deixando comentários agressivos em todos os posts de amigos seus que ousem dizer qualquer coisa que escape a sua lógica, única verdade possível. Inclusive, apesar de manifestar firmemente sua posição, de um jeito até prepotente, você já acusa de intolerante qualquer um que discorde de suas palavras ou lhe faça uma crítica. Porque, pelo visto, você não precisa respeitar seu ninguém, mas você pode chegar chutando a porta e socando a cara de geral que não dá nada. Mas, vamos lá, é seu jeito. Cada um é do jeito que é, com seus defeitos e seus méritos…

Aliás, por falar em mérito, eu só acho engraçado que você vive defendendo a meritocracia, mas disse outro dia que seu filho, pra ser bem sucedido, tem que estudar no colégio mais elitizado da cidade. Aí, quando questionaram se o ensino era melhor, você falou que a verdadeira razão era que seu menino ficaria amigo dos futuros políticos, empresários e ricos da cidade. Ah, então é isso a sua meritocracia? Descolar uns cargos comissionados? Umas trocas de favores entre colegas privilegiados? Que coisa, rapaz! Aí, fica fácil dizer que todo mundo tem as mesmas oportunidades pra crescer, se dar bem na vida; que todos têm direito a um lugar ao sol. Ah, mas deixa isso de lado, né? Não é da minha conta o que você considera mérito ou não. Pelo menos, você conquistou seu espaço honestamente.

Ou, quer dizer, mais ou menos, né? Porque eu acho engraçado que você tenha batido panela até gastar o teflon todinho das Tramontina da sua casa, vestiu camisa da seleção mais vezes que Pelé e Garrincha juntos, convidou amigos pra manifestações, fez postagens indignadas e cheias de acusações contra os criminosos, os que tinham bandidos de estimação, os corruptos, mas você mesmo trazia muamba do exterior sem declarar e vendia pra ganhar em cima da sonegação de impostos. Uma vez, quando você me disse o preço de uma guitarra, senti-me roubado duas vezes. E teve também aquela vez que tentou virar fazendeiro, plantar mamão, daí pegou um empréstimo no banco e… tirou tudo do seu nome pra não precisar pagar de volta. Embolsou a grana e deu aquele calote no banco. Confesso que até gostei dessa sua atitude, talvez a mais admirável que você já aprontou. Um liberal militante que rouba um banco. Taí, achei massa. De quebra, você ainda provou duas teses controversas: a de que dinheiro pode sim nascer em árvore e que mamoeiro, se manejado corretamente, pode dar milhão. Como dizem as pessoas, você foi um artista!

Só acho engraçado que essa vocação pra ser artista não lhe tenha concedido empatia para com os artistas de verdade e você defenda ferrenhamente que exposições de arte sejam censuradas, inclusive com agressões e humilhações aos artistas, chegando a dizer que a educação sexual deveria ser banida das escolas e que uma ditadura até que viria bem a calhar pra “separar o joio do trigo”, como se o que importasse, no fim das contas, fosse o posicionamento político do artista e não a qualidade do seu trabalho. Aquele seu comentário no perfil de um amigo (“O MBL já fez muito mais pelo Brasil do que qualquer artista em exposições de arte”) deve ter feito Portinari dar 3 cambalhotas seguidas de convulsões fortíssimas no túmulo. Mas, OK, não vou ficar aqui recordando essas coisas. São apenas alguns detalhes que eu vou lembrando e que, enfim, acho engraçado que aconteçam, né? Fazer o quê?

Mas, vá lá. Vá em paz. Afinal, sou daqueles que perdoa. Não guardo rancor. Guardo nomes. E o seu está tatuado nas paredes internas do miocárdio. Não é engraçado?

 

 

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Carlos Fialho é escritor, publicitário, jornalista e escreve às segundas-feiras