OPINIÃO

Eu sou uma fraude

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Sempre me achei uma fraude. Às vezes escrevia algo que achava que valia, e enganava toda gente que acreditava mesmo que eu soubesse o que diabos estava fazendo.

Eram tiros de festim. Palavras sem perigo. Versos tolos. Apareciam no papel tão de repente que nem dava tempo de descobrir de onde vinham. Inconsequentes. Quando ainda era tempo para espontaneidades.

O vício de vomitar o verbo assim recebeu estímulos diversos: um avô escritor (que não cheguei a conhecer pessoalmente, mas admirava); uma avó contadora de estórias (que me falava do meu avô escritor); e umas duas professoras de redação que me deixavam sonhar, ainda que sob as rédeas de um limite máximo de 30 linhas.

Desafiava o formato exigido para o texto, mas, mesmo assim, elas levavam em conta aquela minha tentativa de gravar a alma com lápis grafite. Por essas é que continuei insistindo na escrita, até sem o menor estilo ou mesmo técnica. O essencial, naquele tempo, era não ter pudor.

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Sinto falta desse tipo de gente, que inspira e reconhece, que estimula e deixa sonhar, que admite (e se encanta com) a espontaneidade, que chega mesmo a se envaidecer da criatividade que encoraja.

Tudo bem que elas fizeram de mim essa fraude, que gosta de escrever mais do que sabe. Aliás, descobri que quase todo mundo na minha idade, mais de 40, já se sentiu, um dia, uma fraude. E que o segredo pra que ninguém descubra a fraude que todos somos é simplesmente acreditar que sabe.

E às vezes a gente acredita tão bem acreditadozinho que todo mundo começa a pensar que é verdade: você sabe mesmo (seja lá o que isso for). E de tanto todo mundo acreditar nisso, você, que sempre duvidou, acaba convencido de que nunca enganou ninguém, e portanto não pode ser fraude. E assim, sem se dar conta, se torna tudo aquilo que nunca imaginara um dia ser. E como não imaginara, não pode sequer descrever o que afinal é.

A essa altura do texto, o leitor deve estar duvidando até se o que escrevo aqui faz algum sentido. E minha intenção é mesmo essa: de escrever com a liberdade de sequer fazer sentido.

É que ando preocupada com esses novos tempos, depois que vi minha filha, sempre tão livre em expressar o que pensa, passar a sofrer de autocensura, reprimindo as próprias ideias, para tentar atender as exigências de uma certa professora que insiste em fazê-la acreditar que paragrafação, e todas as normas técnicas exigidas em redações de concursos, valem mais do que o conteúdo, do que o que você tem a dizer, do que a coragem de manifestar o pensamento. Se for um pensamento crítico então, desses fora da caixinha, pode ser punido com nota zero, inclusive, por “fuga ao tema”.

Entendo que é preciso combater a tendência dos adolescentes de usarem nas redações os vícios daquela linguagem ininteligível que invade as redes sociais, com abreviações diversas, que suprimem quase todas as vogais. Por isso, desde muito cedo expliquei para minha filha o quanto ela ganharia em escrever as palavras por extenso. Mas não acredito que essa exigência exagerada da forma deva ser tamanha a ponto de reduzir a liberdade e a espontaneidade que a escrita precisa ter, como tenho visto, com tristeza, acontecer aqui.

Pior que é essa insegurança (que todos já temos naturalmente, mas a vida ensina que é preciso fingir não ter), trazida e alimentada desde a adolescência, que pode transformar os adolescentes de hoje em fraudes irreparáveis, adultos frustrados oprimidos pela obrigação de ser alguma coisa só pra satisfazer o que mesmo? O padrão esperado? E assim, incapazes de fingir, como todas as pessoas, que não são uma fraude, perdem a chance de um dia virarem o que diabos quiserem ser, livres da necessidade de atender às expectativas dessa nova sociedade robotizada.

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