CIDADANIA

Ex-preso político Moisés Domingo Sobrinho, o Pai Grande, se despede da vida como incansável lutador

A vida é feita de escolhas possíveis”. A frase é do sociólogo e ex-preso político Moisés Domingo Sobrinho, chamado carinhosamente pelos amigos de Pai Grande, em referência à canção de Milton Nascimento. Na manhã desta terça-feira, 2, não foi oferecida como possibilidade prolongar a existência deste que foi um lutador incansável pela vida. Moisés faleceu vítima de complicações do câncer que vinha enfrentando.

O corpo está sendo velado no Centro Morada da Paz da Rua São José, no bairro de Lagoa Seca, desde às 13h30, e pode ser acompanhado virtualmente através do link https://moradadamemoria.com.br/perfil/10188.  O sepultamento acontece às 19hs no Morada da Paz, em Parnamirim.

A repercussão da sua partida, aos 67 anos, repercutiu na sociedade potiguar, especialmente entre dirigentes e militantes do Partido dos Trabalhadores, do qual Moisés foi fundador, sendo o primeiro presidente do diretório municipal de Natal na década de 80.

Em sua conta no Twitter, a governadora do Estado do Rio Grande do Norte, a professora Fátima Bezerra (PT), disse que guardará dele “para sempre sua postura dedicada enquanto professor, militante, dirigente, talentoso intelectual e mais que isso: uma pessoa doce, generosa que sabia cativar, acolher”.

O presidente do Centro de Referência de Direitos Humanos no estado, Roberto Monte, lembrou a trajetória iniciada por Moisés nas lutas sociais. “Participou ativamente da resistência armada ao regime militar, através do PCR, e volta a Natal depois da sua prisão, defendido pela advogada Mércia Albuquerque”, esclarece.

Ficha de Domingos Moisés no Dops

Contemporâneo de Moisés na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, quando disputou o Diretório Central dos Estudantes (DCE) na chapa Arueira, Roberto lembra que ele foi o primeiro a se tornar presidente da entidade em eleição direta após golpe de 1964. Para Roberto, Moisés integra uma “geração tão generosa é uma parte da história que se vai. Nós temos o empenho, desejo e compromisso de retomar a sua trajetória de vida”.

A lembrança é compartilha pelo secretário extraordinário para Gestão de Projetos e Metas de Governo do Rio Grande do Norte, Fernando Mineiro, companheiro de Partido e da gestão do DCE da UFRN eleita para 1979/1980. “Era ‘a volta do cipó de arueira no lombo de quem mandou dar’, cantava ele pelos corredores da universidade, com sua voz altiva, clara e límpida. Participamos da fundação do PT (1980) e seguimos nas lutas – cada um em sua trincheira – há mais de quatro décadas. Aprendi com ele grande parte dos valores políticos que hoje carrego comigo”, afirma Mineiro.

O ex-vereador de Natal e professor Hugo Manso, conheceu Moisés no ano de 1979. E apesar de não ter participado do processo eleitoral para o DCE, Hugo diz lembrar da “festa da vitória na cantina do Galego, no DACS (faculdade de medicina em Petrópolis)”. Era um tempo em que o país experimentava uma “ebulição, muitas novidades, final da Ditadura Militar, retorno dos exilados, soltura de presos políticos como ele”, recorda Hugo. E afirma, “ganhamos muito com a presença de Moisés entre nós”.

Em nota, o Sindicato dos Docentes da UFRN (ADURN-Sindicato) lamentou a morte do professor. “Moisés parte em uma data marcada para a luta pela manutenção de direitos, conquistados graças ao empenho de homens como ele, que dedicaram o melhor de sua vida à luta pela transformação social”. A entidade lembrou, ainda, a trajetória acadêmica e os cargos institucionais que Moisés ocupou na UFRN.

Uma trajetória compartilhada pela professora e vice-presidente do ADURN-Sindicato, Gilka Pimentel, quando ainda eram jovens. Ela lamenta não ter conseguido se despedir de Moisés, “assim como de Lincoln. Você me levou para o movimento estudantil. Aprendi sobre política, socialismo, sobre lutar por um Brasil justo, sem desigualdade. Fui para o PT carregada pela sua mão. Vandré ecoava nas festas do DCE, nos corredores da UFRN nos encontros e farras. Sua voz, seu sorriso ressoam para sempre nas minhas memórias. Éramos jovens e tínhamos muitos sonhos”, postou em sua conta no Facebook.

Moisés deixa mulher e dois filhos.

Sobre Moisés Domingo

Sociólogo, professor vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Foi militante do Partido Comunista Revolucionário (PCR), preso pela ditadura militar nos anos 70. Também foi fundador do Partido dos Trabalhadores do Rio Grande do Norte. sendo o primeiro presidente do PT de Natal na década de 80. Moisés dedicou parte da sua a vida à militância política, e nos últimos anos, ao exercício da produção científica.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte atuou no Programa de Pós-Graduação em Educação. Foi professor visitante na Universidade de Valencia, do Departament de Didáctica de les Ciéncies Experimentals i Socials e consultor externo do Projeto de Pesquisa Las marginaciones personales y la utilidad del saber, do mesmo Departamento.

Exerceu os cargos de Coordenador-Geral de Estatísticas Especiais do INEP/MEC, foi Coordenador-Geral de Desenvolvimento e Modernização e Diretor de Projetos Especiais da SETEC/MEC, além de ter sido Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação do Instituto Federal de Brasília e membro da Rede de Cooperação Internacional Dynamiques Universitaires pour une Société de la Connaissance, envolvendo pesquisadores (as) do Brasil, Portugal, Espanha, França e Grécia.

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