TRABALHO

Fábio Faria não esconde euforia por privatizar os Correios, estatal que emprega 100 mil pessoas

O Rio Grande do Norte está no centro de dois dos principais momentos dos Correios. Em 2001, na pequena Rio do Fogo, distante 75 km de Natal, a empresa anunciou a universalização do serviço com a instalação do posto de atendimento no último município do país onde os Correios ainda não chegavam. A partir daquela data, todos os 5.583 municípios do Brasil à época contavam com ao menos um posto de atendimento da Empresa de Correios e Telégrafos. Esse episódio foi comemorado com uma grande festa no pequeno município, que pela primeira vez recebia a visita de um ministro de estado.

Hoje, exatamente 20 anos depois, é um ministro do Rio Grande do Norte, Fábio Faria (das Comunicações), que anuncia – festejando – o andamento do processo de privatização da empresa. Mas a alegria, desta vez, é restrita. A venda dos Correios mexe com a vida de quase 100 mil funcionários que não sabem o que vai ocorrer com suas vidas profissionais após a privatização. Há o temor que os pequenos municípios do Brasil, que não dão lucro na operacionalização dos postos, deixem de contar com o serviço que, hoje, continua abrangendo todos os municípios do Brasil.

Nos últimos meses, o ministro Fábio Faria vem festejando em suas redes sociais o planejamento para a venda da empresa. A última postagem ocorreu quinta-feira (8), quando divulgou que o Projeto de Lei que detalha a venda da empresa estava em avaliação no Congresso. Também aparece bem feliz quando fala da venda com a imprensa e já declarou que gigantes como FedEx, Magazine Luiza e Amazon estariam interessadas na compra.

Dia 22 de junho, o ministro do RN divulgou um vídeo mostrando uma reunião que ajustava os últimos detalhes do PL. Nesse encontro, inclusive, foi tratada uma mudança substancial nessa venda. Até então, o Governo Bolsonaro dizia que venderia 70% da empresa. A partir do final do mês passado, na véspera de enviar o PL à Câmara Federal, houve uma mudança e o Governo decide vender 100% da estatal.

A expectativa é que o Projeto de Lei que libera a privatização da empresa seja votado até a próxima semana, antes que o Congresso entre em recesso. Caso a votação ocorra, a ideia é privatizar já em 2022. Pelo menos é isso que está previsto no plano de desestatização do Governo Bolsonaro.

O que vai ocorrer com os quase 100 mil funcionários não foi detalhado ainda. Sindicalistas dizem que, na melhor das hipóteses, vai ocorrer o mesmo que as empresas de telefonia: terão um pequeno período de estabilidade e depois são demitidos. “Não tenho dúvidas que seremos demitidos. São 100 mil pessoas que vão perder o emprego se essa privatização tiver sequência. Mas nós estamos lutando para evitar”, conta o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Empresa Brasileira de Correios no RN, Shampoo Zen.

Nas postagens de Fábio Faria não há detalhes financeiros que justifiquem a venda da empresa. As vagas justificativas apontadas são de que é preciso ‘’melhorar” e “modernizar” os serviços. Shampoo Zen afirma que o ministro não recebeu os trabalhadores dos Correios para conversar. “Esse ministro sequer conhece os Correios. Ele não sabe nenhum detalhe da empresa. Vai vender os Correios – uma das mais respeitadas empresas do Brasil, e uma empresa financeiramente lucrativa e independente”, analisa.

Correios no RN
O site dos Correios informa que a empresa está em 5.570 municípios e entrega, em média, 15,2 milhões de objetos postais por dia. A diretoria dos Correios no RN confirmou à Agência Saiba Mais que o Estado conta com 1.200 funcionários e 190 agências distribuídas em todos os 167 municípios do Rio Grande do Norte. Na região metropolitana de Natal, há 8 unidades operacionais e 14 de atendimento.

Segundo o presidente do Sindicato, há quatro anos o número de funcionários dos Correios no RN era de mais de 2 mil trabalhadores. O último grande concurso da estatal ocorreu há mais de 10 anos e um outro, em 2017, foi em áreas restritas. De lá pra cá, houve alguns programas de demissão voluntárias o que diminuiu ainda mais a quantidade de funcionários.

“Sem o investimento em pessoal e estrutura, claro que o serviço cai de qualidade. E o Governo trabalhou muito bem nesse ponto. Coloca a população contra os trabalhadores. Esquece que em um passado próximo, os Correios eram a empresa mais respeitada do Brasil”, lembra Shampoo.

Privatização começou a ser debatida em 2019
A possibilidade de venda dos Correios está em debate no governo desde 2019. A equipe econômica usa argumentos como problemas de eficiência e casos de corrupção que atingiram a companhia no passado.

A Câmara deve votar nos próximos dias o projeto que quebra o monopólio dos Correios. Depois, a proposta ainda precisará passar pelo Senado.

Pelo calendário da equipe econômica, é possível publicar o edital de privatização dos Correios até o fim do ano e realizar a operação até março de 2022.

A urgência para votação do projeto foi aprovada na Câmara no final de abril. O texto permite que serviços postais, inclusive os prestados hoje pelos Correios em regime de monopólio, sejam explorados pela iniciativa privada. Hoje, os Correios têm o monopólio do envio de cartas, telegramas e outras mensagens. Hoje, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos é 100% pública.

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