OPINIÃO

Facções

O ano ainda não terminou, mas já é possível selecionar uma palavra para descrever 2017: facção — e suas derivadas. É um variado clã vocabular, que o Governo do Estado lançou sobre nós ao atribuir a “uma guerra de facções” a escalada dos índices de violência, particularmente o de homicídios. Seria injusto debitar apenas à atual gestão o estado de insegurança pública a que chegamos. Mas o governo poderia melhorar ao menos a retórica, porque a explicação soa como confissão de impotência para conter o enraizamento das facções no RN.

As facções agora estão no centro de outra guerra: a de Flávio Rocha contra o Ministério Público do Trabalho, para escapar de punição por infringir a legislação trabalhista em contratos de terceirização com oficinas de costura. O ataque dele à procuradora e à instituição, em termos dos quais viria a recuar, recebeu tratamento generoso e acrítico. A história da ação, com os fatos que desaguaram na ação judicial, perdeu-se na espuma das bravatas. As manchetes abriram-se mesmo para o breviário neoliberal de viés chantagista. Quem gera emprego não deve ser “atrapalhado” por detalhes desagradáveis como acordos e leis trabalhistas. Ou me deixam livre para antecipar o garrote da reforma ou eu retiro minhas empresas daqui.

A mensagem de Flávio Rocha despertou corações e mentes, gerando um raro episódio de comoção coletiva nessa terra de egoístas mais grandes. Formou-se instantaneamente uma facção do pensamento faccionista, para respaldar e consagrar a tese do empresário e fustigar o Ministério Público do Trabalho. A Guararapes é a minha religião, e Flávio Rocha, o seu profeta. O capital está acima da lei; o trabalho, abaixo. Além de emprego, esses folgados ainda querem direitos?

Entre facções criminosas e facções têxteis, entre a violência e o desemprego, entre facções de opinião e a facção em silêncio, 2017 escancha-se no lombo do elefante, que vai a passo. Para onde? Para o lugar de sempre: o de um estado empobrecido, incapacitado por sucessivos governos, e no qual o personalismo floresce e se agiganta à sombra de instituições inoperantes.

Tenho cá comigo que o fascínio dessa facção pelo flavismo expressa um sentimento comunal de orfandade, e de fundo político. Se o Estado é fraco, como provedor do básico e como mediador de crises; se os velhos avatares apresentam sinais claros de fadiga moral e de material — então, rezemos nostalgicamente ao sinhôzinho da hora. Ele haverá de nos guiar à modernidade, ainda que ela venha a ser apenas o passado repaginado a botox. Com práticas de poder, relações de trabalho e figuras públicas tão arcaicas quanto as que simula substituir.

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Jornalista e Poeta