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Falésia que matou casal e bebê em Pipa deu sinais de desmoronamento em 2018

Uma família morreu após parte de uma falésia desabar no início da tarde desta terça-feira (17) na praia de Pipa, um dos principais cartões postais do Rio Grande do Norte, no município de Tibau do Sul. As vítimas são o jovem casal Hugo Pereira e Stella Souza e o filho deles, Sol, de apenas sete meses de idade.

Imagens do local divulgadas por turistas e moradores mostram vigas de concreto abandonadas que têm relação com um processo de degradação da área. De acordo com a procuradora do Estado Marjorie Madruga, a falésia deu sinais de desabamento há dois anos, quando foi iniciada a construção de um cais, projeto da Prefeitura de Tibau do Sul.

“Quando o município começou a construção do chamado ‘cais da Pipa’, que compreendia uma estrutura paralela à falésia, bem no seu sopé, com um píer para as embarcações turísticas, a falésia começou a desmoronar e os trabalhadores pararam a obra assustados. O Idema [Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte] embargou a obra atendendo recomendação da Procuradoria Geral do Estado e do Ministério Público Federal. Posteriormente, emiti parecer pela anulação da licença ambiental, impedindo assim o município de seguir com a absurda construção”, narra Marjorie Madruga, lembrando que na época foi apontada como a procuradora que era contrária ao desenvolvimento do Estado. “Eis o desenvolvimento!”, aponta ao saber da tragédia.

A procuradora ressalta que falésias são Áreas de Preservação Permanentes – APPs, com natureza e regime jurídico próprio, protegidas pela Constituição Federal e pelo Código Florestal. Ela ressalta que esse tipo de costa, assim como as dunas, tem a função ambiental de “preservar a paisagem, os recursos hídricos, a biodiversidade, a fauna e a flora, proteger o solo, a estabilidade geológica, assegurar o bem estar das populações”.

“Por estas razões, não se pode autorizar construções em APPs, salvo para obras de interesse social, utilidade pública ou de baixo impacto, desde que comprovada a inexistência de alternativa técnica e locacional”, segue detalhando.

Assim, a obra do “cais da Pipa” foi interrompida em março de 2018, apenas um mês após ter sido iniciada. O empreendimento foi orçado em R$ 483.758,25 e utilizava recursos do Governo Federal, por meio do Ministério do Turismo. A conclusão estava prevista para maio daquele ano. Com área de 764 metros quadrados, o objetivo do cais era facilitar o acesso de turistas até a área de onde saem os barcos de passeios.

A Prefeitura de Tibau do Sul informou que a área estava sinalizada com placas informando sobre o risco de desabamento desde o mês de julho e lamentou o acidente.

Confira nota:

É com profunda tristeza e pesar que o município de Tibau do Sul lamenta o falecimento de Hugo Mendes Pereira, Stela Souza e seu bebê, Sol, vítimas desse trágico acidente nas falésias da nossa Praia de Pipa. Ficam os nossos sinceros sentimentos aos amigos e familiares.

O município de Tibau do Sul esclarece também que rotineiramente, como forma de orientações, placas são colocadas nos locais de possíveis deslizamentos que são arrancadas mediante a força da maré.

Por isso, reforçamos o nosso pedido de atenção para que todos evitem proximidade das falésias, preservando assim, suas vidas.

A história interrompida

A família por trás da tragédia era formada por dois jovens super espiritualizados, que valorizavam a simplicidade e gostavam de viver perto do mar, sempre em contato com a natureza. Ao filho, nascido em abril deste ano, deram o nome de Sol.

“Eu vejo Deus em todos os detalhes, em todas as coisas, em tudo que se toca, em tudo que se vê, em tudo que se sente, Deus se faz presente”, havia publicado Hugo Pereira, de 32 anos, em seu perfil do Instagram.

Hugo era natural de Jundiaí, no interior de São Paulo, e morava havia alguns anos em Pipa. Era gerente de recepção no hotel Sunbay e mantinha o espaço Morada da Brisa, oferecendo hospedagem com terapias holísticas e camping.

O nome escolhido para a pousada foi uma homenagem à cadela que lhe acompanhou por mais de uma década. Em 2017, ele chegou a contar em reportagem do Domingo Espetacular, na Record, como renunciou a uma vida estável para viver dentro de uma Kombi com o animalzinho. Hugo era coordenador de projetos internacionais em uma empresa e após oito anos, decidiu mudar de vida.

“De lá pra cá, passei por 5 continentes, vários países , distintas culturas, 24 estados no Brasil. Lugares dos mais diversos, pessoas das mais incríveis. Fiz coisas que nunca havia sequer pensado em fazer, trabalhei na louça, na faxina, diária de servente, trabalhei de voluntário, cerca no meio do mato”, conta em mais um texto publicado nas redes sociais.

No Rio Grande do Norte, encontrou a companheira Stela e juntos tiveram Sol. Stela Souza é mãe também de outro menino, Kaloã. Ela cursava Psicologia, na UNI-RN, e tinha formação livre em terapias holísticas.

Nos primeiros dias do ano, para desejar um feliz 2020, ela publicou uma mensagem que, pelas palavras escolhidas, poderia também ser usada como uma bonita despedida.

“A todos que chegaram e cruzaram o meu caminho, que me trouxeram amor, alegrias, coragem e força pra seguir adiante e me fizeram sentir abençoada e amada, agradecida! Saúdo e honro cada um, com os seus gostos, coisas, com suas escolhas, suas curas, seus pesos, leveza, seus jardins… com o poder e com a força que cada um tem, na doçura e na leveza de ser feliz! (…)”.

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

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