CULTURA

Lava jato vira filme caricato com Moro em segundo plano

O título da atual temporada do Zorra Total, humorístico da Rede Globo, anuncia: “Tá difícil competir com a realidade. Mas a gente tenta”. Produzido pela Telecine, braço cinematográfico da Globo, o longa-metragem “Polícia Federal: A Lei É para Todos” parece ter como bandeira explicar uma realidade tão espetaculosa que nela é difícil acreditar. Com roteiro inspirado na Operação Lava Jato, elenco global e direção novelesca, o filme parece uma dramatização do noticiário dos últimos anos, e isso o coloca em desvantagem relativa às recentes produções cinematográficas nacionais.

A produção é narrada em off pelo delegado da Polícia Federal que liderou a operação Lava Jato desde os seus primórdios. Na vida real, Igor Romário de Paula. No filme, Ivan Romano. Como se registrasse acontecimentos para serem lembrados no futuro, Ivan conta: no começo, éramos uma equipe que coordenou uma ação… E dessa forma, ficamos sabendo que a equipe da Lava Jato é a mesma que trabalhou na prisão de Alberto Youssef, na operação Banestado. Tudo muito didático, como se o espectador, saturado de tanta informação sobre a Lava Jato nos últimos anos, precisasse de alguém que juntasse todas as peças para ele e apresentasse uma história compreensível.

Mas até para alcançar esse intento, é importante saber que produções baseadas em fatos tão recentes não podem tratar o espectador com condescendência. A atuação deve ser convincente, os personagens têm que possuir o atributo da verossimilhança. Exemplo: as imprecações da delegada Bia (Flávia Alessandra), indignada com as barreiras políticas de sua atuação, soam tão furiosas quanto resmungos relativos ao aumento das bolsas Louis Vuitton no pós-crise. É exagerado, parece pití.

Na sessão em que estava, a maioria dos espectadores gargalhou quando pela primeira vez ouviu-se o ex-presidente Lula, numa interceptação telefônica. A voz era completamente diferente, apesar de tentar imitar a original. Saem-se melhor os atores mais experientes, como Antônio Calloni, que, traquejados no ritmo das melhores produções cinematográficas nacionais, puderam dar um tom mais realista aos personagens, sem forçar na pieguice do “sou policial e imponho respeito”.

Marcelo Serrado, que interpreta o juiz Sérgio Moro, também cumpre a função com competência. O juiz está parcimonioso e inspira sensatez – como manda o código Moro de conduta -, chegando a estar, numa escala de importância, em segundo plano na narrativa. Aliás, as cenas em que o juiz autoriza medidas judiciais por meio digital e com notificações via celular, ao invés de darem a ele um ar de herói, parecem delírio diante da realidade do Judiciário brasileiro, em que pilhas de processos se avolumam num mar sem fim de instâncias.

Com roteiro didático e elenco quase todo caricato, restaria ao longa contar com uma direção ousada, que trouxesse para a trama a coragem que os personagens que inspiram a história têm. Recentemente, a própria Globo tem acertado em cenas de ação na novela “A Força do Querer”, com tomadas aéreas intercaladas com perseguições nos morros ao som de uma bela trilha de suspense. Mas o cineasta Marcelo Antunez, que traz na bagagem a direção de longas como “Qualquer Gato Vira-Lata 2” e “Até que a Sorte nos Separe 3: A Falência Final”, achou melhor não arriscar. Não há enquadramentos inovadores, as cenas de ação são para iniciantes e o suspense, morno.

Como registro de uma época, “Polícia Federal: A Lei É para Todos” serve para mostrar que milhares de minutos de noticiário podem ser resumidos numa dramatização e serem levados à tela grande, num momento político ímpar. Como cinema, o longa não merece estar na mesma classificação de gênero que “Tropa de Elite”. A verdadeira história da Operação Lava Jato, com todos os seus prós e contras, merece ser ainda contada de forma mais digna.

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