CULTURA

Família alivia dor e saudade em cartas para Marielle

A vereadora negra, LGBT e favelada que virou símbolo mundial na luta em defesa dos Direitos Humanos após ser executada com quatro tiros na cabeça em março de 2018, no Rio de Janeiro, deixou mãe, pai, uma irmã, uma filha e uma sobrinha.

Aproximar o leitor do núcleo afetivo de Marielle Franco e, especialmente, das dores e do luto familiar torna o livro “Cartas para Marielle” (editora Conexão 7, R$ 35), organizado por Anielle Franco e lançado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), um documento importante para entender melhor quem era a mulher que se multiplicou mesmo depois da morte.

A agência Saiba Mais conversou segunda-feira (15) com Anielle Franco, irmã de Marielle, durante o Encontro das Festas Literárias (Flup), no Museu de Arte do Rio. Ela tinha acabado de descer do palco, onde leu emocionada uma das cartas escritas pela mãe, Marinete Franco, para a filha. O livro terá um novo lançamento dia 27 de julho, no complexo da Maré, data em que Marielle Franco completaria 40 anos de idade.

Anielle Franco é mestra em jornalismo e inglês pela Universidade de Carolina do Norte, nos EUA, e formada em Letras pela UERJ. Atualmente, é diretora do Instituto Marielle Franco e curadora do projeto Papo Franco, além de colunista do coletivo Mídia Ninja e do site Alma Preta.

Segundo Anielle, dois meses após a morte da irmã, os pais dela começaram a escrever à mão cartas para a filha assassinada. Fazia parte do processo de luto e tinham o intuito de expugar as dores que as pessoas não tão próximas da família de Marielle não faziam ideia:

– O livro começou a partir de algumas noites vendo meus pais escreverem enquanto choravam muito em cima de tudo o que estavam passando. Escreviam várias cartas e choravam. E muitas vezes eles amassavam, deixavam pra lá. Mas eram cartas muito fortes, como essa da minha mãe agora que eu li e outras do meu pai, que mexem muito comigo. Comecei a ver aquilo e peguei para digitalizar. Achava que todo mundo tinha que saber o que a gente estava passando, a família de Marielle… as pessoas não tinham dimensão do que era. Peguei primeiro escondido, depois falei para meus pais o que estava fazendo. E eles deixaram”, disse.

Anielle, Antônio, Mariete e Marielle em passeio pelo Jardim Botânico, em 1989 (reprodução Cartas para Marielle)

“Cartas para Marielle” traz 15 cartas da família, incluindo textos de Antônio, Mariete, Luyara, Mariah, além da própria Anielle. Numa das cartas mais fortes, seo Antônio, pai da vereadora, narra a dor e o choque de saber da morte da filha pela televisão:

– Começou o jogo do Flamengo e, até aquele momento, tudo seguia normal. Foi quando de repente minha neta, a Luyara, que estava conosco e é flamenguista, pediu para eu mudar de canal e colocar no G1 que tinham ligado para ela dizendo que tinha acontecido um negócio muito sério com a mãe dela. Mudei de canal e o que vi e li no rodapé da televisão foi a pior frase que li em toda a minha vida, vou falar novamente, a pior frase que li na minha vida: “Vereadora Marielle Franco assassinada no Centro do RJ

 A primeira carta, lembra Anielle, foi pela mãe Marinete no primeira Dia das Mães sem a filha:

– Ela escreveu a primeira no Dia das Mães. Meu pai escrevia, minha mãe, Mariah (sobrinha, filha de Anielle) e Luyara (filha de Marielle). Eles continuam escrevendo até hoje. Na verdade, o livro é uma ideia de eternizar um sentimento”, diz.

Anielle e Marielle

 Em outra carta emocionada, a própria Anielle fala da luta e do orgulho dos pais por Marielle:

– Nosso pai escreve sempre que a dor se faz presente. Ele tem falado tão bonito que me faz pensar o quanto ele pode ter aprendido com você. Nossa mãe, muito mais durona, você sabe, anda por aí batendo no peito dizendo que é a MÃE DA MARIELLE com vários broches e adesivos. Eles estão levando, vivendo, lutando, mas no fundo bem no fundo, eles e o mundo preferiam que isso nunca tivesse acontecido”, afirmou.

Mariete Franco, a mãe de Marielle, usa palavras e imagens fortes para tentar explicar os sentimentos mesmo mais de um ano após o assassinato da filha:

– Um ano e um mês de dor, sofrimento e minha família dilacerada. Em meu coração são muitas perguntas e poucas respostas. Para mim, como mãe, tem sido um período de deserto que invade meu coração e afunda minha alma no mais profundo abismo”, escreveu.

O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL) escreve uma das introduções e lembra o dia em que conheceu Marielle, apresentada por Anielle, de quem foi professor no ensino médio. O encontro se deu durante um debate com o diretor José Padilha após a exibição do documentário Ônibus 174. Marielle trabalhou na equipe de assessores de Freixo em 2007 e manteve com ele uma relação de afeto e amizade. No texto, o deputado destaca relação da amiga com a família:

– Fui compreendendo com o tempo que a força política daquela cria da Maré tinha relação direta com aquele núcleo familiar. Religiosos, sempre estavam próximos uns dos outros. Mari foi assumindo cada vez mais a responsabilidade sobre todos. Amor, cuidado e afeto nas mesas de domingo. Sua forma de lidar com os limites da família foram fundamentais para Mari criar sabedoria política”, escreveu.

Anielle conta que as cartas trazem “o sentimento da nossa existência, da nossa dor”. Em 12 de março, a polícia prendeu dois acusados de matar a vereadora: o sargento da Polícia Militar reformado Ronnie Lessa e o ex-policial militar Elcio Vieira de Queiroz. As respostas sobre o mandante do crime ainda não foram dadas pelo Estado. Ainda assim, a família segue confiante.

– Sabemos que foi um passo dado (a prisão dos acusados), mas esperamos mais. Estamos esperançosos”, concluiu.

 

 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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