CIDADANIA

Famílias da ocupação Emmanuel Bezerra transformam prédio abandonado em casa coletiva em Natal

O carrinho ainda está encostado e tem poucas coisas. Mas, em breve, Marília da Silva, de 44 anos, espera conseguir enchê-lo de pipocas e confeitos e marcar ponto na Policlínica da Ribeira, vizinho ao seu novo endereço de morada. Desde o dia 30 de outubro, ela e mais 59 famílias ocuparam um antigo prédio da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) que estava abandonado há anos na Ribeira. Marília nunca teve casa própria e desde 2002 morava numa casa, perto da Praia do Meio, que pertencia aos patrões da mãe, mas que morreram no ano passado. Como a residência pertence aos herdeiros dos patrões e um vizinho é que tem pago as prestações do IPTU, Marília deixou a casa e se juntou ao Movimento de Lutas nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB).

Eu vendia coco na praia, mas por causa de um problema de visão, não posso levar mais sol. Estou com uma cirurgia de catarata marcada. Agora quero ajeitar esse carrinho e colocar outro de coco e açaí aqui na esquina, me disseram que dá muita gente por causa da clínica. Minha vida não é fácil, faço tratamento pra depressão no Caps e minha filha tem hipertireoidismo. Já perdi até consulta por falta de dinheiro pra pegar o ônibus, estou tentando fazer a carteira de estudante dela para ver se gastamos menos. Não é porque é minha filha não, mas ela é muito inteligente, passou no curso para bombeiro mirim sem ter que pagar aquela taxa de R$80”, conta Marília, orgulhosa da filha Maria Clara, que faz o 5º ano Na Escola Municipal Laura Maia, que fica na Rua do Motor.

Foto: Mirella Lopes I Marília e a filha

Para transformar o antigo espaço onde já funcionou a Faculdade de Direito da UFRN numa espécie de casa coletiva, as famílias se organizaram e se dividiram por tarefas. Elas limparam o edifício, formaram equipes responsáveis pela manutenção, segurança, cozinha e limpeza. Cada um contribui como pode.

Aqui estamos passando por um processo de reeducação, para vivermos em coletividade. Hoje é aqui, amanhã pode ser em outro lugar. O importante é que cada um leve consigo esse sentimento de pertencimento, de que é preciso cuidar do espaço de forma organizada pelo bem de todos. Enquanto houver prédio abandonado e pessoas sem casa, nós estaremos trabalhando”, conta Marcos Antônio, Coordenador do MLB.

Para quem já vivia de favor na casa do irmão, ficar sem emprego e não poder ajudar nas despesas foi o início de um novo drama para Maria Lúcia de Lima que, aos 64 anos, ainda não conseguiu se aposentar. Angustiada por ser mais uma a dar despesa numa casa de 9 pessoas, onde apenas uma tem emprego certo, Dona Lúcia decidiu sair de casa. Sem outra opção, ela se juntou às famílias que fazem parte da ocupação.

Minha filha, eu fazia bolo de macaxeira para vender no Centro de Turismo, mas adoeci de artrite e artrose e fiquei sem força para bater a massa”, conta ela mostrando os punhos inchados de amassar a macaxeira e preparar a massa manualmente.

“Depois disso, fui vender coco na praia, mas com a pandemia acabou tudo! Na casa do meu irmão são nove pessoas e só um trabalha, mas ele já paga pensão pra duas filhas, eu não vou dizer que estava me sentindo bem lá, só dando trabalho e despesa. Por enquanto, tô vivendo com o auxílio do governo que antes era de R$600, mas esse mês já baixou pra R$300”, conta Dona Lúcia que está na ocupação junto com a filha que tem mais três crianças.

Como ajudar

Na ocupação Emmanuel Bezerra as famílias precisam, principalmente, de material de limpeza e higiene, além de alimentação. Quem puder ajudar, pode deixar o material na própria ocupação, que fica no antigo prédio da UFRN, vizinho ao Teatro Alberto Maranhão, ou fazer depósito na conta:

Caixa Econômica Federal

Nome: Matheus Felipe Araújo Querino

Conta: 000 84 369 – 2

Agência: 034

Op.: 013

Ocupação Pedro Melo

Além da ocupação Emmanuel Bezerra, há quase dois anos o MLB também organiza a ocupação Pedro Melo, no antigo Hotel Central, na Ribeira. Mas, por lá, as 17 famílias que ocupam o espaço já têm destino certo. Depois de uma tentativa de reintegração de posse solicitada pela Prefeitura de Natal, o movimento conseguiu negociar a transferência das famílias para as unidades habitacionais do Village de Prata, no Planalto. O condomínio foi construído através do Programa Minha Casa, Minha Vida para famílias de baixa renda. Ao todo, são 1.792 unidades com dois quartos, sala, cozinha e banheiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

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