DEMOCRACIA, Principal

Fátima herdará gestão descontinuada em áreas estratégicas e sinaliza perfil técnico

Cinco secretários diferentes na Saúde (Sesap), três secretários diferentes na Segurança Pública (Sesed) e dois secretários diferentes na Educação (SEEC). Se contar a pasta de Justiça e Cidadania, que controla o sistema penitenciário, são mais cinco secretários diferentes no controle do órgão.

Somando todos os titulares que passaram pela Sesap, Sesed, Seec e Sejuc durante os quatro anos do governo Robinson são 15 gestores diferentes em quatro áreas estratégicas para o Governo.

A Segurança e a Saúde foram duas das políticas mais desastrosas da gestão que termina em 31 de dezembro. A questão financeira pesou, mas no caso dessas pastas há outro fator que não pode ser esquecido: a descontinuidade das políticas de gestão.

Só pela secretaria de Saúde Pública passaram Ricardo Lagreca, Eulália Albuquerque, George Antunes, Pedro Cavalcanti e o atual Sidney Domingos. Em quatro anos de mandato, é menos de um ano de trabalho, em média, para cada um.

Na Segurança, estiveram no controle da pasta os delegados de polícia civil Kalina Leite e Sheyla Freitas (atual) e o delegado federal Caio Bezerra. Cinco secretários diferentes também estiveram à frente do controle do sistema penitenciário: Zaidem Heronildes, Edilson França, Cristiano Feitosa, Wallber Virgolino e Luís Mauro Albuquerque Araújo, que será mantido pela governadora eleita Fátima Bezerra.

A Educação foi das áreas estratégicas a que menos sofreu com a descontinuidade no atual governo. Ainda assim, a pasta mudou de mãos durante a gestão de Robinson. A professora Cláudia Santa Rosa assumiu a Educação antes da metade do mandato, depois que o petista Chagas Fernandes pediu exoneração ainda em maio de 2016, minutos após o deputado federal Fábio Faria (PSD), filho do governador Robinson Faria, anunciar apoio ao impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff.

A chance de uma gestão dar certo sem um direcionamento definido e com tantas cabeças diferentes pensando é quase zero.

Novo titular da Educação coordenou ampliação dos IFs no país

O anúncio do professor Getúlio Marques para a secretaria de Educação nesta quinta-feira (29) encerra as especulações sobre o tripé mais sensível do próximo Governo. O Rio Grande do Norte agora já sabe quem vai comandar as pastas da Segurança, Saúde e Educação e que as três gestões, pelos nomes definidos, terão perfil técnico.

Francisco Araújo (Segurança), Cipriano Maia (Saúde) e Getúlio Marques (Educação) serão três auxiliares especialistas em suas respectivas áreas. Na primeira leva, Fátima injetou o DNA petista aonde pôde. À exceção da Segurança, pasta onde o PT nunca teve quadros e não é possível carimbar ideologias, Educação e Saúde ficaram com técnicos muito próximos a Fátima e já com passagens pela administração pública federal e municipal.

Com Araújo, a governadora valoriza a Polícia Militar, algo que não acontecia há duas décadas no Estado. O último foi o coronel Josemar, ainda no governo Garibaldi Alves (MDB), exonerado após o escândalo das bananas e acusado de mandar queimar a fita do primeiro depoimento de Gusson, homem-bomba do governo Garibaldi. Depois desse episódio, a política de Segurança Pública no Rio Grande do Norte sempre foi conduzida por operadores das policias civil, militar, federal ou Forças Armadas. O coronel Araújo é visto como um policial militar que reza a cartilha da diplomacia, dialoga com todas as polícias e defende uma articulação conjunta entre as inteligências militar, civil e federal.

Cipriano Maia é um dos maiores especialistas e defensores da gestão do SUS no Brasil. Foi auxiliar do Ministério da Saúde no governo Lula e ex-secretário municipal de Saúde na administração do ex-prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves, em 2013 e 2014. Deixou a pasta antes de concluir o trabalho.

Educação

Assim como Cipriano Maia, a escolha de Getúlio Marques também não chegou a ser uma surpresa. Ele foi o coordenador do programa de governo de Fátima na campanha eleitoral e embarca na futura gestão tendo no currículo a chefia do projeto de ampliação dos Institutos Federais no Brasil, com reflexos diretos para o Rio Grande do Norte.

Ex-auxiliar de Fernando Haddad no Ministério da Educação, Marques teve papel central no salto do número de IFs pelo país, saindo das 104 unidades até 2002 para expressivos 634 ao final do governo Dilma Rousseff.

No Rio Grande do Norte, o crescimento foi proporcionalmente ainda maior. Antes dos governos petistas, o Estado possuía apenas dois IFs e hoje conta com 21 unidades.

Se Fátima não pode errar na Segurança, terá no mínimo a mesma responsabilidade na Educação. A próxima governadora do Estado ganhou a eleição trocando a farda de sindicalista pela de professora. E tem uma trajetória parlamentar inegavelmente ligada à área de Educação.

O último projeto de Fátima que virou lei em maio de 2018 instituiu, pela primeira vez na história do Brasil, uma política nacional da Leitura e do Livro.

A governadora sabe que essa trajetória não deve ser mais do que um quadro emoldurado na parede pelos próximos quatro anos. Diferente do Parlamento, o Executivo vai exigir resultados de curto e médio prazo.

Getúlio Marques chega ao Governo com a obrigação, também, de enfrentar esses gargalos. O principal deles é tirar o Rio Grande do Norte da vexatória antepenúltima posição no ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

Não por acaso, a melhoria nos índices do Ideb é a primeira diretriz que aparece no programa de governo de Fátima coordenado por Marques. O plano conta, a priori, com 12 propostas genéricas, que vão desde o incentivo à alfabetização, fortalecimento de parcerias com UFRN, UERN e outras universidades do Estado, até a modernização da gestão investindo em novas tecnologias.

Chama a atenção no programa a ideia de trabalhar a educação em rede com municípios de modo a ofertar mais vagas na educação, a partir das creches até a pós-graduação.

Fátima sinalizou na campanha que Segurança e Educação trabalhariam juntas.

É um bom sinal, mas não garante o sucesso da gestão.

É preciso que haja uma política definida e, havendo essa política, que tenha tempo para ser implementada.

Na dúvida, basta olhar para o retrovisor.

 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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