OPINIÃO

Fé demais não cheira bem

Abro o meu escrito de hoje com o título de um filme de 1992, uma comédia dramática dirigida por Richard Pearce e tendo o astro da época, Steve Martin, como principal protagonista. No filme, Martin interpreta um pastor picareta que vai de cidade em cidade com seu trailer, pelo interior dos Estados Unidos, abrindo tendas onde, nos seus cultos, faria milagres, como livrar pessoas de doenças e fazer cadeirantes andarem. Até que ele esbarra numa cidade onde o xerife (um jovem Liam Neeson, em começo de carreira), começa a investigá-lo, tentando de toda forma provar que o reverendo é um charlatão.

Esse saudoso filme que já passou várias vezes na Sessão da Tarde poderia servir como mote, ou até mesmo para o nome da operação policial, em parceria com o Ministério Público, que resultou na prisão do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella. Acusado de montar um esquema de propinas na Prefeitura do Rio, Crivella foi preso na chamada Operação Hades, nome que representa o deus grego responsável pelo inferno. Nada pior que o inferno para um pastor evangélico que nos seus cultos pregava o exorcismo e a cura de demônios, a nove dias de encerrar o seu mandato de prefeito, numa trama que, para seus defensores, não passa de “coisa do capeta” .

Horas após sua prisão, divulgada à exaustão nos meios de comunicação, Crivella teve sua prisão preventiva convertida em prisão domiciliar pelo STJ, com uso de tornozeleira eletrônica e retirada de celulares, computadores, internet e quaisquer equipamentos eletrônicos de comunicação de sua casa. Crivella só pode se relacionar, agora, com o Deus que diz crer, em suas orações, e não mais com seus supostos contatos de propina, por telefone. Bispo licenciado da Igreja Universal, enquanto político, Crivella, na verdade, nunca deixou de lado a relação entre fé e exercício da função pública, entre poder e religião.

“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Por trás desse versículo bíblico, encontrado em João 8:32, e, repetido à exaustão pelo agora tornozelado prefeito do Rio, durante a campanha eleitoral de onde saiu derrotado, e repetido pelo presidente da república que o apoiou, está uma constatação histórica: nos últimos vinte anos não houve um único mandatário no Executivo estadual ou municipal do Rio de Janeiro que não tenha deixado de experimentar ficar atrás das grades ou ter, no mínimo, respondido a um processo criminal. Vários fatores explicam isso: a forma abrupta com que o Rio de Janeiro deixou de ser a capital da república e do antigo império, há mais de meio século, com a inauguração de Brasília; a dependência cada vez mais crescente da economia da cidade de recursos públicos, com seu mal aproveitamento e desvios; a consolidação da criminalidade organizada e da consequente cooptação e corrupção de agentes públicos na “cidade maravilhosa”; mas, principalmente, no caso da prisão do prefeito Crivella há mais um fator a ser explicado: a confusão entre o público e o privado a confirmar uma mistura de boa e velha falcatrua política com charlatanismo religioso.

Por ser uma cidade com milhares de excluídos moradores de morros e favelas que desabam ou alagam com as chuvas, o Rio de Janeiro do Carnaval e das belíssimas praias, como uma Ipanema cuja garota foi cantada em prosa e verso por Moraes e Jobim, também é o Rio da população negra da periferia, sem água, luz, emprego e, na cadência do samba à mercê de milicianos e demagogos. Pela escassez de ações sociais do poder público, saíram os assistentes sociais e entraram as igrejas, e baseada numa tal de teologia da prosperidade, onde um pedacinho do paraíso seria construído na terra, mediante um contrato com Deus, é que se destacou a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada e liderada pelo bispo Edir Macedo, tio de Marcelo Crivella.

Não se pode mensurar ainda o baque no projeto político da Universal com a recente queda do prefeito Crivella, mas o que pode se afirmar, com certeza, é que o tornozelado prefeito do Rio era um dos maiores expoentes do projeto pessoal de Edir Macedo de não apenas ter transformado uma igreja num conglomerado empresarial bilionário, dono de rádios e canal de televisão, mas também de conseguir o seu maior objetivo, com o apoio do bolsonarismo: consolidar uma verdadeira teocracia, cristã, evangélica e de direita, em território nacional.

Os evangélicos já se constituem em 30% do eleitorado nacional, e entre cultos, uso de línguas estranhas, sessões de cura e exorcismos, feitos principalmente por Igrejas pentecostais, a cada eleição cresce nos legislativos municipais, estaduais e federal, a quantidade de parlamentares identificados com a chamada “Bancada da Bíblia”. Geralmente conservadores e apegados a pauta dos costumes, pastores, assim como Crivella, que se lançaram na política, posaram para seus eleitores como homens santos, piedosos, ardorosos defensores da família, primeira entre as primeiras das palavras de ordem em qualquer comício de um político evangélico que queira ganhar uma eleição. Marcelo Crivella cresceu nesse cenário, com um empurrãozinho muito bem impulsionado por uma igreja que se tornou uma multinacional.

De senador da república pelo estado do Rio de Janeiro, a ministro da pesca do governo da presidenta Dilma Rousseff, até chegar a Prefeitura do Rio, o projeto de Crivella estava bem em sintonia com o de sua igreja e seu líder religioso máximo (que aqui não é Jesus Cristo, mas sim um cara que já foi preso várias vezes sob acusação de estelionato, teve a história retratada em filme e é acostumado a construir e viver em palácios, que chama de catedral da fé). O último projeto político da Igreja Universal foi o de se refugiar dentro de um partido, o Republicanos, que fracassou também em São Paulo, na mal sucedida empreitada eleitoral de tentar eleger um patético Celso Russomanno. A desidratação, nem que seja ao menos temporária, da busca pelo poder da Universal, faz lembrar bem o personagem de Steve Martin, no filme que eu citei no começo deste texto. Com a diferença de que, no final da história, o protagonista encontra sua redenção, enquanto que, fora da ficção, aqui no Brasil, Crivella e sua turma de fiéis regada a orações e propinas, parece estar bem longe disso.

Na prefeitura do Rio, o mandatário tornozelado fez de tudo (menos cuidar da cidade): suprimiu verbas para o Carnaval, condenando à míngua milhares de trabalhadores que viam renda sendo adquirida com os festejos do Momo, recusando-se a participar da festa (afinal de contas, “crente que se presta” não vai participar de uma imoralidade pecaminosa como essas, não é mesmo?!); encerrou de forma abrupta o contrato com os permissionários do pedágio, destruindo postos e catracas com tratores e escavadeiras, numa iniciativa puramente demagógica, derrubada pela Justiça; interviu em eventos culturais, como a Bienal do Rio, recolhendo histórias em quadrinhos com personagens gays, sob o pretexto de defender as crianças e a família, noutra iniciativa derrubada judicialmente, ao estabelecer censura e atacar a liberdade de expressão; durante as extensas chuvas e deslizamentos que anualmente castigam áreas mais vulneráveis da cidade, disse o absurdo de que pobres gostam de viver em áreas de enchente, “porque gastam menos com cocô e xixi”, recebendo uma bola de lama no rosto, arremessada por um morador, em plena entrevista dada a imprensa; sofreu ao todo nove pedidos de processo de impeachment, tendo um sido aberto pela primeira vez na história da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, pela acusação de beneficiar pessoas ligadas a sua igreja no atendimento médico e pedido de cirurgias em detrimento da população (o famoso “fale com a Márcia”, frase captada em gravações do prefeito indicando uma assessora, virou bordão), e, principalmente, o de favorecer o empresário Rafael Alves (também preso), no desvio de recursos na Riotur, no escândalo que ficou conhecido como “QG da Propina”, e que resultou na operação que acabou por prender o prefeito.

Entretanto, talvez a mais espantosa contribuição que Marcelo Crivella pode ter dado, como mau exemplo, na história política do Rio de Janeiro, foi durante o período da tenebrosa pandemia de coronavirus, que sacudiu a humanidade este ano. Diante do colapso do sistema de saúde, a quantidade de internações e vítimas fatais da doença, e completa incompetência na gestão de hospitais, o prefeito do Rio tentou cercear a imprensa, constrangendo repórteres, mediante a utilização de servidores comissionados para formar uma tropa de choque na frente de unidades de saúde, impedindo filmagens, quebrando câmeras e intimidando jornalistas, nos episódios que ficaram conhecidos como “os ataques dos Guardiões do Crivella”.

Num sistema de saúde rocambolesco, dentro de um enredo administrativo tão rocambolesco, é até natural pensar que um prefeito tão enrolado quanto Marcelo Crivella acabasse preso. Concorrendo com folga na liderança do título de pior prefeito do Rio de Janeiro, o chefe do Executivo tornozelado e afastado da Prefeitura no final de mandato, poderá ter o consolo de, dentro em breve, voltar aos púlpitos, e quem sabe, escapar da cadeia, porém pode não escapar do castigo divino, como o dito no Antigo Testamento, em Ezequiel 17:19: “Juro pela minha vida que Eu castigarei o rei por ter quebrado o acordo que mediante meu Nome jurou guardar”.

 

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