DEMOCRACIA

Fernando Morais: “Vendi uma moto BMW e um quadro da Tomie Ohtake para fazer o Nocaute”  

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Biógrafo consagrado, escritor de célebres livros-reportagens e repórter com atuação destacada na mídia impressa tradicional, o mineiro Fernando Morais decidiu partir, após os 70 anos de idade, para a fogueira sagrada do jornalismo independente.

 “Criei o Nocaute imediatamente após o golpe (de 2016, contra a presidenta Dilma Rousseff). Eu devo ser o blogueiro mais velho da turma e o que tem o blog mais novo da turma”, diz.

Fernando Morais conversou com a agência Saiba Mais logo após participar do seminário “Desafios da Comunicação nas Administrações Públicas”, realizado pelo Centro de Estudos de Mídia Independente Barão de Itararé, em Salvador (BA).

Politicamente, embora muito amigo do ex-presidente Lula, Morais não se classifica como petista, mas ativista do campo democrático. Aliás, o líder petista é o personagem do próximo livro do jornalista, a ser lançado no próximo ano. Há três anos encarando os desafios de terminar o mês sem saber como vai conseguir pagar os três profissionais que trabalham com ele no blog Nocaute, diz que pelo menos uma vez por semana pensa em desistir:

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Uma vez por semana eu tenho uma síndrome de bipolaridade e tenho a tentação de fechar o Nocaute. Vendi tudo o que eu tinha”, conta.

Entre os objetos que precisou se desfazer para montar o estúdio que mantém em casa, em São Paulo, estão uma motocicleta de estimação e um quadro da artista plástica japonesa radicada no Brasil Tomie Ohtake:

– Vendi minha motocicleta, uma BMW 1951, toda recuperada, tinha ido duas vezes ao Chile com ela. Passei nos cobres e torrei na sagrada fogueira do Nocaute. Quando eu fiz 50 anos a Tomie Ohtake me deu uma tela de 2 metros por 2 metros e, como ela não estava aqui para testemunhar, senão eu ficaria com vergonha, passei a Tomie nos cobre e torrei na sagrada fogueira do Nocaute. Tem mês que eu deixo de receber para poder pagar as pessoas que trabalham comigo. Então estou começando a achar duas coisas: que Deus existe e que ele é comunista”, afirmou, rindo, o jornalista ateu.

A maior parte da carreira, Morais trilhou na mídia impressa. Atuou na revista Veja, na época do ex-diretor Mino Carta, no Jornal da Tarde, entre outros veículos. Ele classifica como “revolução” o processo de adaptação para a internet:

– Passei a maior parte da minha vida trabalhando com impresso. O pouco que trabalhei com televisão foi numa máquina de escrever pautando repórter. Então, pra mim, internamente, (o Nocaute) é uma revolução, é difícil aprender”, reflete.

A principal dificuldade, no entanto, tem sido uma surpresa para o jornalista: o choque de geração entre a turma que sabe escrever, mas tem dificuldade com o mundo digital, versus os mais novos que entende das novas tecnologias, mas não sabem escrever:

– A geração que sabe mexer com internet não sabe escrever, foi mal educada nas escolas. Não é que não tenha talento, é que não sabe ortografia, concordância. E o pessoal da minha geração que sabe escrever ortografia não entende nada de internet. Se chegar agora a notícia agora de que o Bolsonaro deu um tiro no coco do Mourão e depois no coco dele mesmo eu tenho que ligar para o Alcides Moreno subir a notícia lá em São Paulo porque eu não sei subir”, afirmou.

Fernando Morais aprofunda a crítica à má formação escolar dos novos jornalistas. E lembra que não é na faculdade de jornalismo que os futuros repórteres vão aprender a escrever:

– É um choque de geração de gente que foi mal educada no sentido estrito da palavra, educação formal, e não adianta fazer a melhor faculdade de jornalismo do mundo que eles não vão te ensinar ortografia, pontuação e nem a conjugar verbo. Mas não adianta dar aula de jornalismo para o sujeito que escreve “você” com dois “s”. Tem um negócio que eu chamo de “vírgula paulista” que é quando o sujeito atira a vírgula no texto como se estivesse dando um tiro de fuzil. O poeta Ferreira Goulart tinha uma frase ótima que deveria ser usada por todo mundo: “a crase não foi feita para humilhar ninguém”, encerra rindo.

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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