CIDADANIA

“Fizeram tempestade em copo d’água”, diz professora da UFRN acusada de racismo após arquivamento de sindicância

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte arquivou a sindicância aberta para apurar se houve racismo na conduta da professora de Historiografia Brasileira, doutora Flávia de Sá Pedreira. A docente foi denunciada pela estudante Amanda Pereira da Silva por supostamente relativizar a escravidão de povos africanos e, ao se justificar, disse que estava sendo perseguida por ser branca. “Fizeram tempestade em copo d’água”, declarou a professora.

A comissão avaliou que nem a professora nem a aluna cometeram qualquer delito. “Seria necessário que as ofensas ultrapassassem o limite subjetivo da defesa de ideias para o cometido deliberado de infração segundo o arcabouço jurídico que rege a vida universitária e o serviço público federal”, consta na decisão, assinada pela diretora do Centro de Ciências Humanas Letras e Artes (CCHLA), Maria das Graças Soares Rodrigues.

O documento também sugere, por iniciativa da Comissão de Sindicância Investigativa, que tanto a professora como Amanda inscrevam-se em cursos de “Comunicação não violenta” e que sejam consultadas as ofertas de tais cursos na instituição.

No dia 26 de janeiro de 2021, primeiro dia de aula (remota) para os calouros da licenciatura em História, a estudante Amanda Pereira, militante do Movimento Negro, questionou o discurso da professora. Flávia de Sá falava que a escravidão na África começou antes da chegada dos europeus – fato notoriamente conhecido entre historiadores. A estudante disse advertiu a professora por ter dito que “ficam colocando a África como vítima, só que já existia a escravidão antes dos europeus, não é bem assim não!”.

Na defesa apresentada à UFRN, a pesquisadora conta que mostrou alguns livros de sua biblioteca e leu passagens textuais, prometendo citar a bibliografia relacionada à história da África na plataforma virtual da comunidade acadêmica, SIGAA, “esclarecendo que a mercantilização do tráfico negreiro e sua expansão, após a chegada dos europeus, é ponto pacífico, mas que isso não invalidou o fato de que na África já houvesse a escravidão de negros por reinados negros, antes da chegada dos europeus ao continente”.

Ainda de acordo com a defesa, a professora Flávia tentou demonstrar, com trecho de documentário Atlântico negro: na rota dos orixás, em que falam sobre o tema os historiadores Alberto da Costa e Silva e Karl Emanuel, um branco e outro negro, a inconsistência da argumentação de Amanda sobre a professora não poder falar do tema por ter “lugar de fala de uma mulher branca na universidade”.

Na aula seguinte, dia 28 de janeiro, depois de ter visto mensagens dos estudantes no chat, a professora de Historiografia Brasileira voltou ao tema e classificou como “babaquice” os comentários irônicos.

Ao final da discussão e acusação de racismo, segundo Flávia, “com base em interpretações distorcidas”, ela chegou a falar em “racismo reverso”, mas em sua defesa admitiu se tratar de uma expressão polêmica e inapropriada e que deve ser considerado o contexto de ofensas no auge de uma discussão extremamente acalorada.

Em entrevista à Agência Saiba Mais, Amanda explicou sua revolta: “Ela não pode querer culpabilizar os povos africanos pela escravidão em escala mundial. Sim, existia escravidão na África antes dos colonizadores, mas é muito diferente do que se tornou o mercado do transatlântico. E quando você trata isso numa turma de calouros que acabou de chegar, sem explicar isso para pessoas que estão sendo formadas para serem professores, compromete demais”.

O Centro Acadêmico do curso publicou uma carta escrita pelos discentes de Historiografia Brasileira no ano anterior, no semestre 2019.1. No texto, os veteranos se solidarizam com Amanda.

“Focando em relação ao comportamento ético da docente e a forma tendenciosa a qual trabalhava os conteúdos dentro de sala, presenciamos diversos casos problemáticos os quais, na atual denúncia feita pela discente Amanda Pereira, não são vistos como novos”, assinam, ressaltando que aquilo que estava expondo já havia sido formalizado à Ouvidoria em relatos individuais.

 

 

 

 

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

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