OPINIÃO

Fofoca histórico-literária, a “História Bizarra da Literatura Brasileira”

Hoje trago coisas mais amenas, vou falar de um livro que comprei há alguns dias, e que tem sido uma excelente companhia, uma delícia de ler. Não se trata de uma crítica ou resenha literária, essa não é a minha praia. Quero apenas compartilhar com vocês uma leitura prazerosa, na verdade, oferecer uma degustação de um livro leve, para ser devorado nas férias, pra ser levado para a praia em janeiro. Trata-se da “História Bizarra da Literatura Brasileira”. O autor é Marcel Verrumo, a quem não conhecia até adquirir o livro.

O livro me atraiu inicialmente pela capa, que possui ilustrações interessantes relacionadas as histórias ali contadas sobre diversas figuras da literatura brasileira. Depois de dar uma rápida folheada, gostei do que vi, e levei pra casa. Valeu a pena. Não se preocupem, não vou fazer spoiler, vou apenas citar algumas curiosidades das muitas que o livro possui, só pra atiçar a curiosidade de vocês.

A “História Bizarra da Literatura Brasileira” retrata fatos de autores desde o descobrimento do Brasil até a ditadura militar. O livro conta, logo em seu início, uma com curiosidades sobre Pero Vaz de Caminha, que, em sua   celebre carta, além de relatar sobre as novidades da nova terra descoberta, aproveitou-se para pedir um favor ao rei de Portugal: que perdoasse a seu genro que havia sido condenado ao exílio em uma colônia portuguesa na África por ter roubado uma igreja e ferido um sacerdote. Dom Manoel inicialmente ignorou o pedido de Pero Vaz, somente se lembrando e atendendo a súplica quando soube, meses depois, que Pero Vaz havia sido assassinado em Calicute, na Índia, após um ataque de árabes e indianos à frota de Cabral. Pra mim foi uma novidade saber que Pero Vaz não voltou vivo a Portugal após o descobrimento do Brasil. Ainda sobre o descobrimento, outra curiosidade contada no livro, a nau que levou a carta de Pero Vaz, levou também a Portugal amostras do que haviam encontrado por aqui, aves, frutas, madeira, artesanato e, pasmem, até um índio. Pena que o livro não conta o destino dele em terras lusitanas.

O livro é leve e instiga a nossa curiosidade a cada capítulo, nele descobri, por exemplo, que  Gonçalves Dias (Canção do Exílio, lembram?) passou dois anos dado como morto. A História é a seguinte: Gonçalves Dias viajou em um navio para a França (provavelmente em 1861), para se tratar de uma doença. Depois de 55 dias de viagem, o navio ancorou em Marselha, com a notícia de que um dos marinheiros morrera a bordo. A notícia chegou a Paris, mas apresentando como vítima Gonçalves Dias, de lá se espalhou até o Brasil. Aqui a comoção foi geral, com direito inclusive a luto oficial, decretado por D. Pedro II. Gonçalves Dias passou pouco mais de dois anos na França e, ao retornar ao Brasil, muito adoentado, já próximo ao Maranhão, sua terra Natal, a embarcação em que vinha chocou-se com um banco de areia, a tripulação salvou-se como pode, esquecendo Gonçalves Dias em sua cabine, que foi o único a morrer, afogado, em plena costa maranhense.

Outra curiosidade do livro é o primeiro acidente de automóvel no Brasil, protagonizado por Olavo Bilac, que destruiu o carro de José do Patrocínio, importado da Europa, dirigindo a incríveis 4km/h.

Os dramas humanos de alguns autores são também retratados no livro, como os de Raul Pompeia, Lima Barreto e outros. Traz ainda curiosidades relacionadas, por exemplo, a literatura LGBT já no século XIX, as cartas de José de Alencar a favor da escravidão, as declarações homofóbicas de Drummond, entre outras.

Para a agradável surpresa nossa, o livro traz também capítulo dedicado a nossa Nísia Floresta, primeira mulher a publicar um livro no Brasil, em 1832.

Numa espécie de “fofoca histórico-literária”, o livro traz também particularidades da vida de grandes autores brasileiros,  como Monteiro Lobato, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, Manoel Bandeira, Mario de Andrade, Machado de Assis e muitos outros.

O livro finaliza com o capítulo “as entrelinhas da ditadura”, que conta fatos de alguns autores durante a ditadura militar, momento em que é possível se saber, por exemplo, do apoio de Rachel de Queiroz ao golpe de 64, quando, anos antes, era simpatizante do PCB. Ao ser indagada, em uma entrevista, aos 80 anos, sobre de que se arrependia, ela respondeu: “De ter nascido, de ter vivido, de ter feito tanta bobagem. Eu me arrependo de quase tudo.”

A “História Bizarra da Literatura Brasileira”, além de nos trazer informações jamais vistas nas nossas aulas de literatura, proporciona conhecer melhor a faceta humana dos escritores mais consagrados do país, o que  nos permite uma melhor compreensão do sentido de suas obras,

Vale a pena ler. #fica a dica.

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