CULTURA

Fome de conhecimento: Editora do MST quer distribuir livros em cestas básicas

Já diziam os Titãs nos idos anos 80 que “a gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte”. A reflexão parece até ter servido de inspiração para a editora Expressão Popular, fundada nos anos 90, através do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A editora que, atualmente, atua em um campo bem mais abrangente do que o da temática rural está com três projetos em andamento, um deles é o de distribuir livros junto com as cestas de alimentos doadas às famílias carentes.

A ideia é massificar o livro, colocar junto às cestas básicas onde cada família que recebesse uma doação de alimentos, recebesse um livro junto. Nós já fizemos essa experiência em São Paulo, Paraná e em mais alguns lugares. Mas é preciso uma grande quantidade de exemplares. Tivemos muitas reações simpáticas a esse projeto, foi bem forte. Muitas pessoas relataram que nunca tinham recebido ou ganhado livros. Vamos começar com o projeto das Bibliotecas Populares. Nós vamos mandar mais de 60 títulos e pouco mais de cem exemplares para cada local que os movimentos sociais populares escolherem a partir do desenvolvimento das atividades de doação de alimentos e organização local, principalmente, nas periferias do Brasil. O outro é o da Mochila Militante, que será repassada para todos os trabalhadores e trabalhadoras que estão coordenando atividades de solidariedade pelo país para que cada um deles se aproprie do conhecimento e melhore suas práticas”, explica Carlos Bellé, que faz parte da Coordenação da Editora Expressão popular.

Foto: cedida

A Expressão Popular foi fundada em 1999 num contexto de reação à hegemonia do neoliberalismo e de privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso. Apesar de ter sido uma iniciativa do MST, cuja coordenação estava preocupada com a qualificação da militância, a editora sempre teve uma atuação mais ampla, com contribuições de diferentes setores da sociedade.

Ela sempre foi mais ampla porque envolve outros movimentos, como os intelectuais orgânicos que atuam no Conselho Editorial, propõem políticas para que consigamos atender às demandas de um projeto popular para o Brasil e de transformação social. Nós agregamos todos, um conjunto grande de homens e mulheres que partilham desse sonho de transformação na sociedade. Como se qualificar no atual contexto brasileiro e como melhorar a prática social na perspectiva da transformação da realidade com reformas estruturais que resolvam os problemas do povo. O MST é um dos grandes parceiros, mas são vários pontos de referência que alimentam esse sonho. No final dos anos 90 havia a hegemonia da questão neoliberal com a privatização do estado, a redução do seu tamanho. Eles diziam que o estado não deveria intervir na economia, no social, nas questões estruturais e ainda havia, ideologicamente, os rescaldos da queda do muro de Berlim, que atingiu uma parte da militância social sindical partidária onde o neoliberalismo, aparentemente, seria a única alternativa. Foi para fazer frente a isso e atender à militância que não caiu nessa ilusão é que a editora ‘Expressão Popular’ foi criada”, detalha Bellé.

Viabilizar financeiramente a editora não foi uma das etapas mais fáceis, o que só foi possível graças ao emprenho dos militantes que se responsabilizavam pela distribuição dos títulos por todo o país. Hoje, a Expressão Popular já conta com uma rede eficiente de distribuição que cobre todo o território nacional através de lojas físicas e site.

Aproveitávamos os cursos de formação para fazer envio de materiais. A Expressão Popular tem essa característica do esforço de múltiplas pessoas que acreditam no formato solidário de adesão a um projeto de transformação social. É uma junção de esforços que caracteriza a editora até hoje para conseguir viabilizá-la financeiramente. A partir dessa experiência Inicial nós desenvolvemos uma rede Brasil afora com cerca de 130 lugares onde militantes dos movimentos populares e sociais trabalham com a revenda dos materiais e livros, inclusive em Natal. Além disso, temos o site onde disponibilizamos todo o nosso material. É onde temos a possibilidade de chegar em qualquer ponto do país, mas sempre contando com essa rede de distribuição, com essa militância aguerrida que acredita na importância desse projeto político editorial e também na perspectiva de que agregando solidariedade, vivenciando a solidariedade é que nós construímos algo diferenciado. Na Expressão Popular, por exemplo, uma das condições para publicar qualquer obra é a cessão dos direitos autorais. É uma simbologia, uma forma de você aderir à causa da classe trabalhadora”, conta Carlos Bellé, que falou com a equipe da Agência Saiba Mais direto de Florianópolis, em Santa Catarina.

Com mais de 700 títulos em seu catálogo, diante do atual contexto de queimadas e incêndios florestais, pandemia do novo Coronavírus e alimentação saudável sem uso de agrotóxicos, a coleção da agroecologia tem sido uma das mais procuradas.

Hoje, se olharmos a grosso modo pela questão da crise ambiental causada pelo capital, pautada também pela Covid-19, que tem sua origem nessa degradação conforme vários estudos apontam, no desequilíbrio do ambiente e no modelo de produção do alimento, com as queimadas Brasil afora e o debate sobre alimentação saudável, nossa coleção ‘Agroecologia’, é um dos temas mais procurados na Expressão Popular. Nós pautamos o debate sobre a soberania alimentar, sobre alimentação saudável e a construção de uma alternativa ao modelo de desenvolvimento do agronegócio, com uso de agrotóxico. Isso é o que está puxando, no momento histórico, esse material. Por outro lado, também temos debates motivados pela questão mais conjuntural, política, que é o comportamento da luta de classes hoje como os livros ‘Guerras Híbridas’ e ‘Balas de Washington’, que estão sendo muito procurados porque as pessoas querem compreender o que está acontecendo, para saber o que fazer logo adiante”, contextualiza Bellé, que faz parte da Coordenação da Editora.

 

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