OPINIÃO

Fome de tudo

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A pobreza corta o coração de qualquer um. Ouça alguém falar sobre tempos de comida escassa, de pouco ou nenhum conforto, de falta em geral. Eu me comovo. Muito. A pobreza atravessa a carne, deixa um sinal claro ao longo de anos de que esteve, ou mesmo de que ainda está ali.

Então, num dia qualquer, num encontro qualquer, com os assuntos de costume, você fica meio calado, não entra muito no papo. Afinal, ainda não fez grandes viagens, nunca fez cursinho de inglês, não renova o guarda-roupa há anos e outras coisas que, embora não devessem, sempre estiveram longe da sua realidade.

É fogo! Por mais que a vida melhore, que o dólar se estabilize, que a bolsa feche em alta, você não consegue abandonar as lembranças da maldita pobreza. É preciso frear qualquer euforia, até porque você continua contando os trocados todo fim de mês. Veja, isso tudo é muito simbólico, quase metafórico. É como se a vida fosse uma eterna expectativa por melhoria.

Vem culpa, vem agonia, por vezes até raiva. É difícil demais esquecer de onde se vem. E quando se pensa muito sobre isso não sobra tempo para cancelar ninguém no twitter, nem para ler Foucault. E também é difícil demais explicar esse universo para quem nunca o visitou. Sei que consigo me adaptar, mas sei também que não pertenço a muitos e tantos lugares.

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Eu tenho um medo profundo, ainda que remoto. Tenho um medo danado da miséria da fome. Todos os passos dados por mim nessa vida carregam o peso desse receio, desse pavor. Todos têm opinião. Todos nos dizem como devemos viver. Até o que devemos comer. Mas quando deixamos de nos importar com os medos? Não é sobre o preço da carne, o Futuro Burguer ou a produção de orgânicos. É mais sobre gente mesmo. Gente faminta. Com fome de tudo e fastio de blá blá blá economiquês.

O que alivia é ver o florescer de gente pensando sobre comida. Não há nada mais devastador que a fome. E, para usar um termo atual, não há nada mais empoderador do que um prato de comida. É preciso não esquecer disso jamais. Ter o que comer não faz ninguém melhor ou pior. Não é poder mais ou poder menos, é também poder. Simplesmente poder.

 

 

 

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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