OPINIÃO

Frente ampla como opção aos delírios do estreitismo político

As manifestações contra o Mandrião, as pesquisas recentemente divulgadas e a “CPI da COVID”, já tiveram o efeito de surtar a súcia que ainda o acompanha, e não são poucos. Como um animal encurralado ou ferido, o “duce” irá se tornar cada vez mais agressivo e sua gangue não se furtará em utilizar todos os recursos, públicos e privados, para uma campanha de recuperação da imagem do presidente, que foi chamado, em Cannes, na abertura do maior festival de cinema do mundo, de gangster, pelo cineasta norte-americano Spike Lee.

As discussões, que tomam corpo, é sobre se deve-se continuar a pedir o impeachment desse elemento, ou se a tática é a de fustigá-lo até as eleições. O grande problema de jogar para o futuro a possibilidade de derrotar Bolsonaro é que estamos relativizando o quanto de vidas ainda perderemos. Num exercício bem otimista, digamos que a média diária de mortes, hoje acima de 1.500, caia, por exemplo, a 200 por dia, devido a vacinação, cujo ritmo é muito lento ainda. Daqui a 15 meses, considerando o cenário citado, teremos mais 90 mil mortos pela COVID.

Não creio que devamos desconsiderar esses mortos, que certamente engrossarão as listas de perdas de entes queridos, sem falar nos sequelados, uma multidão ainda a ser dimensionada. Ao lado disso, temos a indicação de que o governo fascista instalou uma quadrilha dentro do ministério da Saúde, negociando vidas, sem o mínimo pudor, o que exige uma resposta social rápida e dura, o impeachment. Ocorre que o impeachment não uma mera peça jurídica, pois se assim o fosse Bolsonaro certamente terminaria seus dias numa cela em Bangu 8. Ela é a consequência de um processo político e nesse campo Bolsonaro ainda tem estofo e força, pois é o “centrão” quem domina a cena política hoje em dia.

Portanto é imperativo que se forme uma ampla aliança de forças para fortalecer o processo de confrontação com o presidente, e as manifestações podem dar uma base para a construção, nada fácil dessa aliança. E aqui temos um nó.

As discussões, que não são de hoje, sobre o conteúdo das frentes políticas tendem a dividir o campo progressista e entenda-se progressista todo o campo político que vai da centro-esquerda a esquerda, deixando de lado os grupúsculos que se arvoram “revolucionários”, mas que, na realidade, colecionam ações que afastam os setores menos afeitos à truculência.

“Frente de esquerda” ou “frente ampla”? Considero um delírio essa formulação de “frente de esquerda”, na medida em que se trata de um desejo e uma formulação tática de posicionamento estratégico para firmar posição e a tal “marcação de posição” é uma praga que existe dentro do campo progressista há tempos. Considerando a história do BraZil, é uma formulação oca, sem sentido, mas que é simpática aos que se movem pela raiva, desejo, ou seja, lá que sentimento for, e alimenta os pequenos grupos que veem “a” revolução em cada esquina.

Por outro lado, os que advogam a “frente ampla” tentam engatar essa tática, mas eis que emerge o problema da amplitude dessa frente e a “esquerda”, tão democrática e libertária nos discursos, mostra-se pouco sensível na prática e criam “selos” de participação dos setores que não somaram com “suas posições. A “frente ampla” tende, em alguns casos, a ser uma “frente ampla de esquerda”, que tolera outros campos, mas não aceita os “inimigos”; em outros casos exige-se, dos “inimigos” a famosa autocrítica, para que tenham acesso à frente, ou seja, imposição com o discurso da amplitude.

Talvez se a “esquerda” conhecesse a fundo as experiências de frentes políticas, pudessem fazer uma reflexão mais qualificada. Frentes políticas existiram e existem a partir da necessidade de formar uma aliança, em determinada condição histórica, para derrotar um inimigo comum e, de acordo com o cenário político, forja-se uma frente para esse fim específico.

Frentes amplas não são necessariamente alianças permanentes, ou coalizões eleitorais ou sequer a tão sonhada “unidade de ação”, uma espécie de “remédio de feira” que amplos setores da esquerda defendem para “enquadrar” quem não está seguindo sua linha de ação. Frentes amplas são acordos pontuais, para necessidades pontuais e emergenciais e não tem conteúdo programático, mas sim posicionamento comum.

No BraZil as “frentes amplas” são tão difíceis de formar que o exemplo mais recente foi em 1984, quando, sem a participação do Partido dos Trabalhadores (PT) forjou-se a Aliança Democrática para derrotar o candidato dos generais ditadores, Paulo Maluf, no famigerado Colégio Eleitoral. O problema é que a Aliança Democrática se tornou coalizão de governo e sua essência foi diluída nas disputas políticas.

Agora, com mais de 527 mil mortos, se exige uma frente ampla e que ela seja caleidoscópio político, bem mais amplo do que a grande jogada do PT em 2002, com a Carta aos Brasileiros e aliança com o Partido Liberal (PL), que lhe deu a vice-presidência e possibilitou a derrota do tucanato. Amplo por necessidade de brecar-se a mortandade; de recuperar o mínimo de civilidade numa sociedade que está visivelmente adoentada, vítima do surto de ignorância que emergiu das enganosas “jornadas de junho”, em 2013.

O debate está posto.

 

 

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