TRABALHO

Funcionários de Call Centers no RN denunciam perigos no cotidiano de trabalho em meio à pandemia

Apesar de todas as orientações médicas e sanitárias para evitar aglomerações e dos decretos governamentais para fechar serviços não essenciais durante a pandemia, as empresas de telemarketing seguem operando normalmente em todo Brasil. No Rio Grande do Norte, Teleperformance e Contact Center Riachuelo seguem mantendo áreas com grandes grupos de funcionários trabalhando. Os terceirizados acreditam estar vivendo em um planeta à parte, onde tentam manter o funcionamento, ignorando ou minimizando os relatos de operadores sobre colegas doentes ou contato com infectados.

As empresas de call center são um ambiente ideal para a contaminação pelo vírus, aglomerando centenas de pessoas em salões mal ventilados e compartilhando equipamentos, além da ausência de meios de prevenção básicos, como álcool em gel e limpeza do espaço de trabalho.

Cerca de 15 mil pessoas trabalham nesse segmento no estado potiguar, somando as três unidades de call centers em Natal e Parnamirim. Depois dos decretos do Governo do Estado que determinam suspensão de serviços essenciais, redução do fluxo de transportes e medidas de higiene e distância entre funcionários nessas empresas, tem sido adotado o regime de férias coletivas e banco de horas para alguns funcionários.

De acordo com uma das funcionárias das Teleperformance, Beatriz*, a preocupação com os funcionários foi demonstrada pela empresa apenas após a publicização da situação dos trabalhadores na imprensa. “Tem pouquíssimos dispensers com álcool em gel, apenas na recepção e no refeitório, eles colocaram lá apenas no dia 19/03. Já no dia 20, passaram a verificar a temperatura de quem entrava e direcionavam quem tinha sintomas para o ambulatório ou para unidades próximas de saúde. Depois que a polícia apareceu para verificar a situação, eles dispensaram alguns funcionários em grupo de risco dando férias, mas em uma situação de pandemia, quem vai gozar de férias?”, questiona.

A Teleperformance possui regime de Banco de Horas, onde os funcionários que trabalham em feriados e fazem horas extras, recebem o dia trabalhado em dinheiro ou em folgas. Para diminuir o fluxo de funcionários nas unidades, os trabalhadores com BH foram dispensados. Já quem não tinha esse tempo para tirar, foi orientado a ficar em casa e deverá pagar o dia não trabalhado posteriormente, fazendo hora extra ou tendo o dinheiro descontado no salário.

Ainda de acordo com Beatriz*, depois da determinação estadual que prevê a redução de pessoal nessas empresas, a TP está fazendo pesquisas para adaptar os serviços a home office. “Nós respondemos há alguns dias uma pesquisa que perguntava se teríamos condições de trabalhar em casa, depois, alguns assinaram um termo afirmando, ou não, ter essas condições, mas não foi explicado nada sobre os benefícios que recebemos. A empresa vai ficar isenta de arcar com os custos de atendimento de quem vai trabalhar em casa e às vezes nem tem condições de fazer isso, vai só disponibilizar os fones”, conta a funcionária. Segundo ela, há rumores de que, com a redução nos serviços de transporte público, a empresa vai disponibilizar ônibus para buscar e deixar funcionários em pontos específicos, mas não deixará ninguém em casa, nem mesmo os funcionários que encerram o expediente às 23h.

Já no Contact Center da Riachuelo, a situação não difere muito da outra empresa. Em Natal, aconteceram algumas campanhas sobre a importância de lavar as mãos e passar o álcool em gel para evitar o contágio do Covid-19. Férias coletivas também estão sendo adotadas, porém, é preferência que sejam usadas por funcionários da administração, e não de atendimento.

“Algumas pessoas de áreas internas já receberam a proposta de home office, mas poucas pessoas de atendimento foram dispensadas e são os que mais se arriscam a pegar transporte público diariamente. Eles estão preocupados com a saúde financeira da empresa, não com a nossa. Recentemente cinco pessoas de São Paulo estiveram nas dependências do Call e eles estão ignorando isso”, denunciou anonimamente um funcionário, através de uma rede social.

Laura* também é funcionária da Teleperformance, ela foi dispensada por dois dias do serviço e tem até 3 meses para pagar essas horas de trabalho, ou terá o valor referente descontado de seu pagamento. Ela faz parte do grupo de risco por ter doença crônica e, depois desses dois dias em casa, vai voltar a trabalhar nesta terça-feira (24). Ela conta que a ordem veio de seus supervisores, mas apenas depois de procurar informação por muito tempo e com diversas pessoas. Para ela, não existe comunicação entre a empresa e seus funcionários diante da crise do Coronavírus.

“Não dá nem para ter noção de quantas pessoas têm lá dentro de tanta gente que é, nós dividimos muitas coisas como o Headset e isso é muito arriscado, além do percurso até lá. Eu pego dois ônibus pra chegar ao trabalho, só Deus sabe o que e quem circulou ali dentro e lá na TP tem sabão nos banheiros, mas álcool em gel é muito pouco. Eu fico nervosa, com medo e sem informação alguma, sem falar que é injusto que nós tenhamos que pagar horas extras ou ter desconto no salário por algo que nós não temos culpa de estar acontecendo, relata Laura*.

Segundo a funcionária, algumas pessoas que apresentam sintomas ou doenças de risco estão sendo liberadas, mas apenas com laudo médico, porém, os funcionários tem medo de ir ao hospital e adquirir o vírus.

No caso de Raquel*, também funcionária da Teleperformance, a empresa forneceu um fone para que ela realizasse seu trabalho em casa. Porém, a estudante universitária não possui computador próprio.

“Eles dizem que estão preocupados conosco mas não estão, tem muita gente trabalhando ainda, mesmo sentando em uma mesa de operação sim e outra não, ainda é um risco enorme, eles estão preocupados com lucro. Eu tô numa situação desesperadora, me puseram para trabalhar em casa, me deram um fone e eu estou correndo atrás de um computador, falando com todo mundo que conheço. Isso é exemplo de que não existe fornecimento das condições de trabalho”, desabafa a funcionária.

Governo Bolsonaro classifica call center como atividade essencial

Em meio a uma onda de protestos de funcionários de call centers em todo o Brasil durante a pandemia de Coronavírus, o Governo Federal resolveu declarar a atividade como essencial. As centrais de atendimento telefônico foram incluídas na nova versão de um decreto que regulamenta medidas a serem tomadas para o controle da pandemia. A nova versão do texto foi publicada no último sábado, em edição extra do Diário Oficial da União. Originalmente, o decreto 10.282, emitido domingo (22), não citava call centers.

Pelo decreto, atividades consideradas essenciais são “aquelas indispensáveis ao atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade“. Segundo o texto, a interrupção desses serviços “coloca em perigo a sobrevivência, a saúde ou a segurança da população”. Assim como o atendimento de centrais telefônicas, também são serviços essenciais: assistência à saúde, atividades de defesa nacional e civil, tratamento de água e esgoto, e outros.

A governadora Fátima Bezerra publicou em suas redes sociais que medidas continuam sendo estudadas para diminuir a exposição dos funcionários de Call Centers no Estado. Segundo a Governadora, as medidas serão regularmente reavaliadas.

De acordo com o último Decreto publicado, de Nº 29.541 de 20/03/2020, fica determinado as empresas de teleatendimento e call centers a observação da distância mínima de dois metros entre as mesas de trabalho, bem como a impossibilidade de utilização compartilhada de objetos e equipamentos de trabalho de uso pessoal, como headsets e microfones. As empresas devem garantir álcool em gel em quantidade suficiente para a higienização dos trabalhadores.

*Todas as personagens têm nomes fictícios e optaram por não se identificar na reportagem. Seus depoimentos estão assegurados pelo sigilo da fonte, garantido no artigo 5°, XIV, da Constituição Federal.

 

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Kamila Tuenia
Jornalista potiguar em formação pela UFRN, repórter e assessora de comunicação.

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