DEMOCRACIA

Futebol do RN afunda na gestão de José Vanildo

Parece que o atual presidente da Federação Norte-riograndense de Futebol (FNF) José Vanildo da Silva vai mesmo conseguir desbancar em tempo de mandato e impopularidade o seu antecessor Nilson Gomes da Costa, que mandou na entidade durante 23 anos até ser defenestrado por uma intervenção. Nilson, assim como Vanildo, tinha o total apoio da CBF, na época, comandada pelo bandido Ricardo Terra Teixeira.

O campeonato potiguar 2019 se encerrou na última quarta-feira (24) de forma melancólica, com invasão de torcida, quebra-quebra de cadeiras, brigas dentro de campo, naquele que poderia ter sido o “jogo da salvação”. Aliás, o certame só não foi mais um fracasso total de média de público (apesar de não ser grande coisa) porque teve o benefício de duas decisões envolvendo ABC x América, uma delas, claro, a final, com quase 22 mil pagantes.

Ao longo dos últimos anos, o declínio de nosso esporte mais popular tem sido evidente, bastando para isso dar uma olhada nas médias de públicos, divulgadas ano a ano pelo pesquisador e estatístico Marcos Trindade. O mais incrível é que nos anos de comando de Vanildo, em nenhum deles, se registrou uma média de público que superasse os 2 mil torcedores por partida.

A média deste ano, mesmo com dois clássicos decisivos e já em tempos de Arena das Dunas, estádio de Copa do Mundo, continua  deixando cada vez mais evidente o abandono dos torcedores. Os 1.847 torcedores por jogo desse ano, acreditem, foi a melhor média dos últimos seis. Aliás, é preciso anotar, e acompanhando os dados do pesquisador, apenas no primeiro ano da gestão de Vanildo a média de público ultrapassou a casa dos 2 mil por partida, total de 2.140 pessoas no ano de 2007, o que corriqueiro em anos anteriores. Sim, não podemos deixar de acrescentar que a violência, crise financeira, transporte e preço de ingresso são fatores que contribuíram para a derrocada.

Com Vanildo, para agravar a situação, veio o desaparecimento de clubes tradicionais como Corinthians de Caicó, o Galo do Seridó, o primeiro campeão do interior; Santa Cruz do Inharé, palco de grandes festas recentes; Pauferrense, forte representante do Alto Oeste, os clubes de Parnamirim; marcante também o descenso do Baraúnas, em crise profunda, endividado, fora da elite e sem perspectiva de retorno. E olha que estamos falando da equipe campeã de 2006, responsável por levar grandes públicos ao estádio Nogueirão, e por fim, o centenário Alecrim, sem apoio, investimento, e seguidos campeonatos de prejuízos acumulados,  rebaixado de forma humilhante para a Segunda Divisão.

José Vanildo, acreditem, foi o responsável pelo abandono do Estádio Juvenal Lamartine, onde funcionava a sede da FNF, para onde convergiam todos os envolvidos nas mais diversas disputas  – ligas amadoras, bairros, interioranos, bases -, tudo isso, praticamente deixou de funcionar, de existir na atual gestão, que a pretexto de enxugar e “profissionalizar” a sua entidade praticamente sepultou esperanças de clubes amadores se tornarem profissionais e fazer parte da elite de nosso futebol. Exigências, cobranças de taxas e maus tratos foram fazendo recuar tradicionais agremiações como Racing das Rocas, Palmeiras das Rocas, Santa Cruz de Mãe Luiza, Portuguesa do Bairro da Conceição, representantes de vários bairros de Natal que disputavam uma empolgante segunda divisão de profissionais.

Fundado em 4 de outubro de 1920, o estadinho do Tirol, histórico,  ano vindouro estará completando um século, provavelmente ainda interditado, hoje é um arremedo do paco que foi desde sua fundação até o começo dos anos 1970. Sem a tradicional arquibancada coberta, sem o seu pórtico charmoso e suas bandeiras tremulantes em dias de jogos, é um prédio morto, quem passa em frente nem imagina os espetáculos que já sediou. JL hoje do horror: banheiros quebrados, estruturas corroídas e muito lixo acumulado, além de ervas daninhas invadindo até mesmo os espaços da enorme arquibancada. Ilegalmente, o Jotinha ainda é palco de jogos de categorias  de base, pelo menos até um poder interessado proibir, já que é uma praça que não pode, legalmente, ser utilizada.

Além do péssimo desempenho como gestor, José Vanildo ainda tem contra si o fato de agir como ditador, não aceitando críticas e chegando ao ponto de destratar profissionais da imprensa que não rezam na sua cartilha com os elogios que gosta de receber. Foi assim com uma repórter da TV Ponta Negra, que provocou pedidos de retratação; depois ofendeu o repórter Mállyk Nagib e a instituição TV Assembleia, e por último, na quinta-feira, 25, na festa de encerramento do campeonato, praticamente obrigou, com ironias e críticas, que o jornalista Ítalo Anderson, da TV União, muito constrangido, se retirasse do local onde fazia seu trabalho.

Como prova de sua rejeição, no twitter do ofendido, no dia seguinte, me narrou o jornalista,  um número recorde de mensagens de solidariedade, todos, sem exceção, reprovando a atitude do mandatário da FNF. Infelizmente, disse Ítalo, o mesmo não aconteceu com os colegas da imprensa. Aliás, é entre profissionais que cobrem o futebol,  estranhamente, assim como acontecia na gestão de Nilson Gomes, onde existe uma forte corrente em defesa ao dirigente, maior parte dela. Claro, os jornalistas que o elogiam e a gestão  acabam também sendo duramente criticados.

O mandato de José Vanildo, que começou em 2007, depois de prorrogações sem eleições, é preciso deixar claro, pois até no tempo de Nilson Gomes tivemos disputas no voto, vai até 2021 ou 2022. Não sei como estará nosso futebol até lá.

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos