OPINIÃO

Futebol e merecimento

Campeonato Brasileiro de 2020, ano da pandemia, não poderia ser diferente, talvez justamente por conta desse vírus maldito, foi o mais estranho de todos que acompanhei. A teima vai persistir: Flamengo mereceu ser campeão? Pontos corridos, disputado jogo a jogo e no futebol de baixo nível apresentado pela grande maioria, claro, não poderia ser diferente a incerteza e decisão para a rodada final do jeito que foi.

Lembro demais de todos os “comentaristas” desta terra e suas bobagens marcantes, já esquecidas, por eles, evidente. Vi gente pregando o Galo campeão faltando mais de 15 rodadas para o final do Brasileiro. Anotei a frase de outro que disse que com a chegada de Rogério Ceni, e depois de suas conquistas, “a nação rubro-negra nem se lembraria mais de Jesus”. Enfim, ele vai achar que está certo, pois o time ganhou esse bi esquisito.

Não estou falando depois, mas falando dos “favoritos” dos cronistas, nunca acreditei no time de Sampaolli. Também não apostei fichas no Santos, Corinthians, Fluminense, apesar da regularidade e nem mesmo no Internacional de Abel Braga que renasceu, depois daquela derrota na Libertadores para o Boca, quando perdeu jogando melhor e na falta de um golzinho, ficando nos pênaltis.

Sempre apregoava que o campeonato estava entre Palmeiras (esse para mim foi a maior decepção, não só pelo Brasileiro, mas pelos papelões na Libertadores, contra o River, segundo jogo no Brasil e depois os fiascos no Mundial, mesmo ainda estando com chances de ganhar a Copa do Brasil ), Grêmio, São Paulo e Flamengo. Quando o tricolor, jogando o fino, abriu sete pontos de vantagem eu achei que ali estava o campeão de forma mais que merecida. O que aconteceu até hoje não sei, só os que viveram o dia a dia do clube, pois não pensem que bestalhões tipo Neto, Milton Neves ou qualquer outro saiba.

Por fim veio o Inter ressurgindo e fazendo ressurgir a estrela de Abel Braga e, diria, terminou a temporada sendo, para mim, o mais merecedor. O treinador que, sem elenco milionário, colocando uma turma de meninos para jogar, conseguiu quebrar o recorde de vitórias sequenciais e brilhar muito. O que seu time fez contra o Corinthians e o Flamengo não, diante do São Paulo, me levaria a dizer que o título foi injusto, mas aí tem aquele jogo contra o Sport…

Isso nunca vai mudar absolutamente nada. O Flamengo foi campeão graças a sua “espinha dorsal” mantida e o talento individual de pelo menos oito jogadores – Rodrigo Caio, Arão, Gerson, Everton Ribeiro, Gabigol, Bruno Henrique. Arrascaeta e Pedro. O Flamengo é uma seleção das melhores. E nem mesmo os erros, repetidos, de Rogério Ceni – mudanças, substituições, posicionamento em campo – conseguiram impedir essa conquista. Foi por conta dos erros de Ceni que essa maravilhosa equipe ainda sofreu aqueles minutos finais no Morumbi, torcendo contra o Internacional. fosse diferente, assim como em 2019 teria sido campeão antecipado.

Encerro esse texto que parece de alguém da “torcida arco-íris” para dizer que o Rogério Ceni, treinador campeão, absurdamente escolhido o melhor da competição, não tem, garanto, a aprovação nem de quatro flamenguistas a cada dez perguntados. No entanto, não tem jeito, estamos falando de futebol, Ceni nasceu predestinado a ser vencedor. Senão, vejamos: goleiro mediano, para não dizer fraco, se transformou em mito no São Paulo por conta dos gols de bola parada. Foi mal como treinador no São Paulo, mas não levou culpa de nada, realizou belo trabalho no Fortaleza com carta branca para fazer do seu jeito, em time mediano campeoníssimo entre os de seu nível, funcionou; falhou no Cruzeiro e no Flamengo, mas, no time carioca, foi salvo pelo elenco fantástico e tropeços absurdos de todos os favoritos. Campeão, para alguns, foi decisivo como motivador.

Assim é o futebol, absurdamente subjetivo e cheio de imprevistos.  Vou repetir afirmações que, quem me acompanha, está careca de ver. Assim é esse esporte que teve Parreira campeão de Copa do Mundo, mas Telê Santana, não; futebol que fez Zinho campeão de Copa do Mundo, Zico e Sócrates, não. Para citar apenas alguns entre tantas coisas e acontecimentos que só posso atribuir ao “Sobrenatural de Almeida”, personagem criado pelo genial Nelson Rodrigues, torcedor do Fluminense.

 

 

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos