OPINIÃO

Futebol Sem Partido

Na semana em que o Big Brother Brasil, programa televisivo apresentado por Tiago Leifert, que por muitos anos tem sido símbolo maior do entretenimento vazio, teve o seu final embalado por disputas que foram muito além do carisma individual, tornando a atração global em pano de fundo para discussões sociais e ideológicas inevitáveis na atualidade, o ex-atleta e atual comentarista Caio Ribeiro brindou-nos com uma pérola da “isenção” disfarçada ao afirmar que um dirigente esportivo deveria se limitar a comentar apenas sobre o esporte relativo a sua rotina laboral.

É o velho “futebol e política não se misturam”. O curioso, e até irônico, é que há algum tempo foi justamente o senhor BBB, Tiago Leifert, que defendeu esta bandeira de que não se deve tratar de política nos esportes em artigo que repercutiu bastante na época. O texto circulou quando o jogador de futebol americano Colin Kaepernick sofria represálias dos Estados Unidos por protestar contra o racismo e ignorava toda a história do esporte e a realidade fora dos nossos extratos de relação mais imediatos. Logo o Tiago que viu o reality show comandado por ele atender a toda uma demanda social represada pelas restrições do isolamento e pela suspensão de outras atrações narrativas que nos davam algum substrato para conversas: futebol, produções audiovisuais inéditas e até mesmo a boa e ancestral conversa em mesas de bar, restaurante ou casa de amigos.

O Big Brother e seu micro-mundo se tornaram motivação para refletirmos a respeito da realidade macro que vivenciamos aqui fora. O preconceito, a desigualdade social, o machismo, os privilégios, a xenofobia, o racismo, tudo estava lá. E ganhava a Internet em debates acalorados e intermináveis, revelando o que deveria ser óbvio para todos nós: a política está em tudo. A emoção do apresentador diante da vitória de uma mulher negra, adotada, médica (ainda mais pelo simbolismo do momento) não se deveu apenas ao fato de ela ser legal. Há muitas camadas na cebola que verteu as lágrimas daquele simpático modelo de sapatênis.

E por falar em sapatênis, voltemos ao Caio Ribeiro. Em meio às discussões sobre a volta ou não do futebol e o vácuo de liderança nacional para coordenar um plano comum a todos os estados de prevenção, combate e retomada gradativa das atividades produtivas, o diretor do São Paulo Futebol Clube, Raí, opinou que um retorno imediato do esporte seria uma irresponsabilidade e sugeriu que o Presidente da República, que afirmou ser a favor da volta dos esportes coletivos, renunciasse ao cargo. Caio que, até onde sei, não demonstrou nenhum incômodo quando atletas de futebol e vôlei masculino manifestaram apoio público em peso ao atual mandatário do país, não aprovou as palavras do ídolo do clube que o revelou. Defendeu um silêncio conivente, uma neutralidade conveniente, uma isenção inexistente.

Raí não é muito de fugir de um desafio, de negar a cara à tapa. Assumiu um cargo diretivo no São Paulo mesmo não precisando, tendo muito a perder e quase nada a ganhar que já não tenha. Arrisca o prestígio conquistado em campo e a idolatria de que goza com os torcedores em cada decisão que toma. Porque, como todos nós, ele pode tanto acertar como também erra. E acreditem: ele tem cometido vários erros. Mas seu posicionamento não foi um deles. Assim como o de Felipão, do ex-goleiro Marcos, do Felipe Melo, e de tantos outros que apoiam o presidente. Todos têm o direito de, enquanto cidadãos, tornar públicas suas escolhas partidárias e ideológicas.

Porque somos todos agentes políticos. Vivemos, lutamos, sofremos e amamos sob a influência do sistema que nos rege e que ajudamos a construir no dia a dia. O futebol não está imune a isso. Dizer que esporte e política não se mistura é desmerecer o legado de Jesse Owens e também do Doutor Sócrates, irmão de Raí, ícone do movimento político-esportivo “Democracia Corintiana”, uma ponte entre a campanha das “Diretas Já” e os torcedores brasileiros na primeira metade dos anos 1980.

Portanto, não me resta outra alternativa que não seja dizer palavras fortes e, talvez até ofensivas, contra o senhor Caio Ribeiro. Mas é preciso agir com firmeza, pois o momento pede. Então, desculpem a falta de noção, mas Caio: você é um bananão!

 

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Carlos Fialho é escritor, publicitário, jornalista e escreve às segundas-feiras