DEMOCRACIA

Geraldo Melo: o eterno retorno do mesmo

Por Wellington Duarte*

O eleitor norte-rio-grandense terá a oportunidade de eleger dois dos três senadores da República neste ano e tem à sua disposição nada menos que quinze candidatos disputando essas duas vagas.

As pesquisas feitas pelos institutos de pesquisa, tem destacado quatro candidaturas, sendo que duas delas são novas no cenário político, uma delas absolutamente estreante na esfera da política, e duas delas vindas dos sarcófagos da política local.

Um desses postulantes, o octogenário Geraldo Melo, tem aparecido como uma novidade, bradando aos quatro ventos que representa a voz “daqueles que foram as ruas”, referindo-se, quem sabe, às manifestações de 2013 que acabaram despertando a Besta fascista que estava adormecida no país e que agora tem na voz do destrambelhado Daciolo e do fascista Bolsonaro, o eco dessas ideias derrotadas na II Guerra Mundial.

De um lado para o outro

Geraldo Melo tem um vasto currículo de participação na nossa política, vinda desde os anos 50 do século XX e já transitou nos clãs Maia e Alves com muita desenvoltura. Sua matriz política foi a conservadora União Democrática Nacional (UDN) onde se aninhavam Dinarte Mariz e Aluízio Alves, rompidos em fins da década de 50 em virtude da vontade de Aluízio de alçar voo solo e ser governador. Melo ficou ao lado de Alves.

De 1961 a 1966 Geraldo Melo foi secretário de Planejamento do governo Aluízio Alves e aderiu alegremente à Ditadura, entrando inclusive na base de apoio deste, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e posteriormente bandeou-se para clã Maia, sendo escolhido, em 1978, vice-governador de Lavoisier Maia.

Melo trocou de lado novamente em 1983, indo para o PMDB aluizista que bancou sua candidatura ao governo do RN, tendo sido eleito com, em 1986, com 50,1% dos votos, derrotando seus antigos aliados. Seu governo, marcado por atrasos salariais e por uma relação nada cordial com o movimento dos trabalhadores em Educação, volta e meia tratada a botinadas pela força policial do governador.

Em 1993, depois de ter deixado o governo do RN vai para o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), mantendo sua aliança com os Alves e elegendo-se senador em 1994, com 27,8% dos votos. Em abril de 1995, o jornal Folha de São Paulo publicou lista dos devedores inadimplentes do Banco do Brasil, em que constava o nome da Companhia Açucareira do Vale do Ceará-Mirim, de sua propriedade.

Geraldo Melo confirmou à imprensa que fizera um empréstimo durante o governo do presidente Fernando Collor de Melo, mas garantiu que o banco não teria motivos para se preocupar, pois o valor avaliado da empresa seria muito superior ao empréstimo. No mês seguinte, a revista Veja publicou que Geraldo Melo mandara construir em 1990 um campo de pouso nas terras de sua fazenda em Ceará-Mirim, alegando que a pista serviria para o Aeroclube de Natal, promessa que não foi realizada, uma vez que a propriedade foi hipotecada ao Banco do Brasil.

Senador de FHC

No Senado foi membro das comissões de Assuntos Econômicos e de Relações Exteriores, votou a favor da quebra do monopólio dos governos estaduais na distribuição do gás canalizado, do monopólio das telecomunicações e da Petrobrás na exploração do petróleo, do fim do conceito de empresa nacional, e da prorrogação da vigência do Fundo Social de Emergência (FSE). Melo foi um dos mais veementes apoiadores da política destruidora de Fernando Henrique Cardoso.

Eleito primeiro vice-presidente do Senado em fevereiro de 1997, em maio votou a favor da emenda da reeleição para presidente da República, governadores e prefeitos e, em março de 1998, pronunciou-se favoravelmente à quebra da estabilidade do servidor público, item da reforma administrativa. Em fevereiro de 1999, reelegeu-se vice-presidente do Senado para o biênio 1999-2001.

Em 2002 tenta reeleger-se, mas com 19,8% dos votos não consegue derrubar Garibaldi Filho e Agripino Maia, “donos” da bancada senatorial do RN. Tenta novamente em 2006, mas sua votação, de 10,7% dos votos, ficou longe de Rosalba Ciarlini (eleita), preferida de Garibaldi, e de Fernando Bezerra (não eleito), que tiveram 44,2% e 43,4% dos votos respectivamente. Melo rompeu, então com Garibaldi.

Em 2009 Melo deixa o PSDB e ingressa no Partido Popular Socialista (PPS), à época presidido por Wober Júnior, acusando o então dono do PSDB, Rogério Marinho, de truculência. Melo aproximou-se, então, de Wilma de Faria, apoiando-a ao Senado, contra Garibaldi e Agripino, sem sucesso novamente e mergulha no ostracismo político e retorna ao PMDB.

Passados nove anos, desde o seu “exílio político”, Geraldo ressurge, de volta ao PSDB e sob a liderança daquele que provocou sua saída em 2009, o próprio Rogério Marinho e dirigido por a outro pequeno cacique local, Ezequiel Ferreira. Nada demais para quem muda de acordo com a direção dos ventos políticos.

Os paleontólogos políticos do RN devem ter ficado frustrados pelo fato de Geraldo ter deixado sua condição de fóssil político, para, aos 83 anos apresentar-se ao eleitorado potiguar como “novo”, o que pode soar ou engraçado ou constrangedor, dependendo do ponto de vista.

E no seu retorno Geraldo, o “novo”, repete o que vem fazendo há quase SEIS DÉCADAS, e alia-se às velhas raposas da política local, embora não tenha mais que enfrentar José Agripino, que desistiu da reeleição. Geraldo, cujo discurso é o mesmíssimo de trinta, quarenta anos atrás, enfrentará o desafio de convencer as pessoas que toda a sua história de oscilações entre Alves e Maia, seja esquecida; que sua vida senatorial (2004-2002) se destacou pelo alinhamento completo com a tucanada privatizadora, ou seja, Geraldo acredita na falta de memória dos que o conhecem e da desinformação de quem não o conhece.

*Wellignton Duarte é presidente do ADURN-Sindicato

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