DEMOCRACIA

Glenn Greendwald: “É um crime para a Rede Globo fazer jornalismo”

“Sérgio moro só tem dois aliados: a Rede Globo e o Antagonista. Jornalismo é muito poderoso. O arquivo que nós temos é muito poderoso. Por causa disso, Sergio Moro está nos investigando e ameaçando nos prender. Ele também sabe que esse arquivo é muito poderoso. Estamos mostrando ao país o poder que o jornalismo investigativo tem, mostrando que mesmo pessoas que parecem invioláveis, tratadas como Deuses ou reis da ética, podem ser derrotados”,

Com recados diretos ao ex-juiz Sérgio Moro, ironias aos adoradores de Jair Bolsonaro e declarações de amor ao jornalismo, ao Brasil e ao marido David Miranda, o jornalista e editor do site The Intercept Brasil Glenn Greendwald foi ovacionado por uma multidão sexta-feira (12), na Festa Internacional de Literatura de Paraty, que acontece até domingo. A agência Saiba Mais está cobrindo a Flip e acompanhou o debate.

Essa foi a primeira aparição pública de Glenn Greendwald após as publicações das mensagens privadas trocadas entre Sérgio Moro e procuradores da operação Lava Jato, escândalo batizado de Vaza Jato. Até então ele havia participado como convidado de sessões na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, além de ter concedido algumas entrevistas sobre os vazamentos.

O debate sobre os rumos do jornalismo no Brasil em tempos de Lava Jato reuniu o editor do The Intercept, o humorista Gregório Duvivier, o cientista social Alceu Castilho e o jornalista Sérgio Amadeu.

A mesa integrou a programação paralela da Feira Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), que acontece pelo segundo ano consecutivo em Paraty. Os debatedores falam em cima de um barco atracado no mar, enquanto o público acompanha as falas da terra.

Glenn chegou escoltado por uma lancha e seguranças. Admiradores do ministro da Justiça Sérgio Moro e de Jair Bolsonaro tentaram em vão atrapalhar o discurso do jornalista soltando fogos de artifício e direcionando caixas de som em alto volume para o local do debate. Além de um remix do hino nacional em ritmo de funk, canções como Pavão Misterioso e Que país é este ? foram ouvidas.

Sempre que Glenn Greendwald ia falar, um pequeno grupo de bolsonaristas aumentava o volume, o que não interferiu no debate.

Greendwald não poupou Moro, a força-tarefa da Lava Jato e a mídia, em especial a Rede Globo:

– Para jornalistas da Globo é crime divulgar, reportar e revelar informação. É um crime para a Rede Globo fazer jornalismo. Foi só a Globo não quis o material que temos. Os resultados são muito claros. As pesquisas estão mostrando que o público brasileiro, depois de cinco anos com essa imagem de super herói sendo construída do Sérgio Moro, em apenas três ou quatro semanas já não aprovam a conduta dele. A verdade sempre prevalece”, disse.

Foto: Rafael Duarte

Greendwald chamou de “facção muito perigosa” a força-tarefa da Lava jato. E destacou a importância do jornalismo investigativo nesse processo:

– Há uma facção muito poderosa nesse país. Sergio Moro e a força-tarefa da Lava Jato estão fazendo coisas muito graves e sem transparência nenhuma até agora. Jornalismo faz isso: levamos transparência para as pessoas mais poderosas. Nos últimos quatro ou cinco anos a mídia brasileira publicou tudo o que essa facção fez. Sabíamos que eram corruptos, que estavam mentindo, mas não tínhamos a evidência. Agora temos a evidencia sobre quem eles são”, afirmou.

Além do jornalista norte-americano que comanda as reportagens sobre a Vaza Jato, a equipe do site The Intercept Brasil conta com outros jovens repórteres. Greendwald se disse orgulhoso do time que vem ajudando a revelar as informações comprometedoras que reforçam o conluio que havia na Lava Jato entre o juiz e os promotores para prender o ex-presidente Lula:

– Eu não estou fazendo esse trabalho sozinho, tenho uma equipe de jornalistas ao meu lado, todos jovens de 22 anos, 25 anos, 32 anos lutando pela democracia brasileira com muita coragem e profissionalismo. O partido do governo gosta de mostrar muita força e coragem. Vocês (público) estão aqui porque sabem que não precisa ter medo deles. Eu estou muito orgulhoso de ter essas pessoas do meu lado”, disse o jornalista, lembrando que o termo #VazaJato foi criado por um jornalista brasileiro de 21 anos de idade: “O nome #VazaJato foi criado dias antes de começarmos a publicar as reportagens por um jovem brasileiro de 21 anos que está fazendo um jornalismo incrível”, afirmou sem dizer o nome do repórter.

Para ele, a máscara do ex-juiz e atual ministro da Justiça Sérgio Moro caiu:

– Sergio Moro foi abatido, a mascara dele caiu para sempre e ele não pode fazer nada. Agora precisamos proteger a constituição brasileira, a imprensa livre e todos os direitos que temos nesse país”, disse.

Foto: Rafael Duarte

Com o público petrificado, Greendwald deixou mensagens de esperança. Casado com o deputado federal David Miranda (PSOL), com quem tem dois filhos adotivos, o editor do The Intercept disse que se apaixonou pelo Brasil há 15 anos e, embora possa sair quando quiser, adiantou que não deixará o país.

– Sou casado com um brasileiro que amo mais do que tudo. Temos agora dois filhos brasileiros que adotamos e somos uma família completa cheia de amor, como todos podem ser, inclusive a juventude desse país. Ao mesmo tempo, posso sair do Brasil a qualquer momento com meu marido e meus filhos, mas não vou fazer isso. Há 15 anos atrás me apaixonei pelo Brasil, pelas pessoas, pela história, pelo espírito nacional. Qualquer humano pode ser derrotado quando todos nos juntamos e não mostramos medo, mas paixão e determinação para defender a verdade e defender nossos direitos”, afirmou.

Ele lembrou que quando iniciou em 2014 uma série de reportagens sobre vazamentos de documentos sigilosos do governo americano, que revelaram uma rede internacional de espionagem dos EUA sobre governos de outros países, a investigação também mostrou a importância do papel da mídia numa democracia. E deixou mais um recado para Sérgio Moro:

– Quero deixar claro para vocês e para Sérgio Moro. Estamos muito, muito, muito mais perto do começo do que do final. Temos muito mais para divulgar”, afirmou mais uma vez ovacionado pelo público.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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