OPINIÃO

Globo morde e assopra ao defender Miriam Leitão contra o bolsonarismo

A jornalista Miriam Leitão e o cientista político Sérgio Abranches entraram no rol de vítimas da horda bolsonarista. Convidados para participar de uma feira literária em Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, tiveram sua participação cancelada em função das ameaças promovidas por simpatizantes do mandatário.

Após o acontecido, o presidente tomou café da manhã com jornalistas estrangeiros, ocasião em que foi questionado sobre o assunto. Bolsonaro, então, resolveu alimentar as hienas que hostilizaram os ex-futuros palestrantes. Segundo ele, Leitão teria sido presa durante a ditadura militar quando estava indo para a Guerrilha do Araguaia. Não suficiente, acusou-a de mentirosa quanto às torturas e abusos que sofreu quando sob custódia dos militares.

Leitão, sendo uma das mais prestigiadas jornalistas das organizações Globo, não poderia ser alvejada sem resposta. Durante a campanha eleitoral, como uma das entrevistadoras do então candidatochegou a passar pelo constrangimento de ter que, por meio do ponto eletrônico, psicografar ao vivo Roberto Marinho em resposta às acusações – verdadeiras, diga-se de passagem – do presidenciável acerca do apoio da Globo ao golpe de 1964. Agora era ela, não a sua empregadora, o alvo direto do bolsonarismo.

Em reação às afirmações de Bolsonaro, a Globo publicou nota de repúdio no Jornal Nacional. Esclareceu que Leitão nunca participou ou quis participar da luta armada e que, à época militante do PC do B, suas atribuições se limitavam a atividades de propaganda. Aos 19 anos, foi presa e torturada mesmo estando gestante. Que teve ainda a oportunidade de narrar as violências que sofreu às instâncias jurisdicionais militares, sendo julgada e absolvida de todas as acusações.

É importante destacar que a nota inicia acusando Bolsonaro de mentiroso. Contudo, após rebater as imputações do presidente, passa a assoprar, aderindo ao expediente mais usado pelo bolsonarismo quando colocado diante dos seus telhados de vidro: apontar para o PT.

A nota prossegue. Observa que durante os governos de Lula e Dilma Miriam também teria sido alvo de ataques por parte de militantes petistas – embora, convém destacar, faça questão de ponderar que nesse período o sofrimento pelo qual passou na ditadura jamais fora questionado. “Neoliberal” e “direitista” seriam os impropérios da vez, ou as ofensas à sua honra pessoal e profissional” protagonizadas por petistas.

O que é mais interessante é que, ao procurar enaltecer as virtudes profissionais de Miriam, a nota equipara as manifestações de Bolsonaro aos “insultos” que sofrera de petistas, classificando-os como iguais em intensidade e teor. Apenas os sinais é que seriam trocados.

Ser chamada de “neoliberal” e “direitista” está longe de ser insulto à honra profissional e pessoal. Sabe-se que Miriam, junto com seus colegas Merval Pereira e Carlos Alberto Sardenberg, é uma entusiasta das políticas entreguistas da década de 90. De forma até intelectualmente honesta, a jornalista nunca escondeu que o seu lado é o do mercado. Ser tachada de “direitista” e “neoliberal” faz parte do jogo político e das consequências de suas opções em aderir a determinado pacote ideológico.

O que surpreende é a nota colocar isso ao lado das atrocidades ditas pelo presidente logo após reconhecer ela própria que não são a mesma coisa. Bolsonaro agiu de forma mentirosa e insensível quando disse que Miriam foi presa por participar da guerrilha e que não foi torturada. Há, no entanto,mentira e insensibilidade em qualificá-la como direitista – seria ela de esquerda, afinal? – ou de neoliberal – não ganhou ela espaço e notoriedade defendendo a política macroeconômica inauguradapor Pedro Malan quando ministro da Fazenda?

Ainda que se ache que Miriam não seja uma coisa nem outra, há de se concordar que existe uma diferença abismal entre essas qualificações e o completo menos cabo ao sofrimento alheio que é fazer pouco caso de alguém que, dentre outras sevícias, foi deixada sozinha, nua e grávida, em uma sala escura com uma cobra (“coitada da cobra”, disse Bolsonaro em 2015 sobre o episódio).

Pôr ofensas e opiniões no mesmo balaio tem como objetivo não apenas confundir, mas passar para o bolsonarismo o recado de que, mesmo quando estamos contra, continuamos a favor – ou que estamos discordando agora, neste ponto em particular, pois para algumas coisas não há como ficar em silêncio, mas no geral estamos juntos. Não é à toa que a narrativa de Moro sobre a Vaza Jato, por mais que carente de qualquer lógica, vem sendo deglutida sem mastigar pelos noticiários da Globo.

Antes de atacar Miriam diante dos jornalistas estrangeiros, Bolsonaro afirmou ser favorável à liberdade de imprensa, dizendo ainda que críticas devem ser toleradas em uma democracia. Um prelúdio às monstruosidades que diria logo em seguida. A Globo sabe que, se há algo que causa úlceras em Bolsonaro, é uma imprensa livre e crítica ao seu governo. Ao morder e assoprar, demonstra estar disposta a tolerar todo o risco que representa à democracia. Até que ponto?

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