OPINIÃO

Gregório, onde está você?

No momento em que recebi o convite de Rafael Duarte, editor da agência Saiba Mais e velho amigo, para contribuir com o portal e escrever sobre o povo negro, nossa história, os desafios e tudo o mais, instantaneamente acendeu a oportunidade de buscar respostas para questões que espero partilhar com vocês, caros leitores e caras leitoras, em cada texto. Como muita gente bem qualificada já discute diariamente as questões contemporâneas do ser negro e também como sou um velho no corpo de um negro de 27 anos – minha namorada tem certeza que é bem mais do que isso -, proponho a vocês uma viagem, que vai perdurar por uns bons textos, pela história da escravidão do povo negro nessa terra de Poti, mostrando a contribuição local para chegarmos até este ponto, partindo de uma simples e irrespondível pergunta: quem eram essas pessoas escravizadas?

Antes de contar a vocês a história que separei para esta primeira coluna, vão aqui alguns dados importantes para nossa caminhada (torcendo para que não se cansem e sigam até o final do texto).

Muitos de vocês já devem ter tido contato com a história dos quilombos, das revoltas dos escravos, de Zumbi, Dandara, Luiza Mahin e seu filho Luiz Gama, o processo abolicionista. Mas e por aqui, no Rio Grande do Norte? Alguém arrisca?

A partir de alguns estudos de Câmara Cascudo e outros antigos historiadores, de certa forma convencionou-se que a escravidão nesta bendita província foi branda, a mão de obra livre que tocava a economia e que poucos negros habitavam por aqui, em comparação com as outras províncias brasileiras.

De fato, o Censo de 1872, único a registrar oficialmente o número de escravos no Brasil, aponta que o Rio Grande do Norte era uma das províncias como menos negros escravizados. Eram 13.020 homens e mulheres, 5,5% da população da província e menos de 1% do total de escravos da nação.

Então, com base nesses estudos históricos iniciais, pouco registrou-se e menos ainda estudou-se posteriormente sobre essas pessoas. Mas que eram essas mais de 13 mil almas ? Por que elas, que hoje seriam a população de cidades como Alexandria e Santana do Matos, seguem invisíveis?

Vamos começar a puxar o fio desse novelo pela breve história de um menino de 7 anos, chamado Gregório. A história de Gregório dá as primeiras pistas que seguiremos nos próximos textos e que você leitor ou leitora vai ver que o tempo passa, “tudo” muda, mas as estruturas permanecem, mais ou menos como diz Tancredo, personagem de “O Leopardo”, romance escrito por Tomasi di Lampedusa: “Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”.

Corria o ano da graça de 1877, mais precisamente em janeiro, quando o jornal Brado Conservador, “folha política, moral e noticiosa” da cidade do Assú, registrava em sua edição de nº 13 uma denúncia envolvendo o “escravinho Gregório”. Tudo começa com um texto na primeira página do jornal ligado ao Partido Conservador denunciando uma ação do juiz substituto Luís Carlos Lins Wanderley, membro do Partido Liberal e presidente da província (cargo equivalente a governador do estado), em favor do mercador de escravos Felippe Máximo da Rocha Bezerra e segue-se por mais cinco edições do jornal, até meados de abril daquele ano.

O pequeno Gregório era filho de Luiza, escrava de Jeronymo Francisco de Oliveira, e Francisco da Gama. Ele tinha apenas 7 anos quando foi comprado por Felippe Máximo em Assú, nos idos de dezembro de 1876. Gama, ao saber que seu filho tinha sido comercializado e seria levado para o “Sul”, reuniu suas posses e correu ao mercador para oferecer 200 mil contos de réis pela liberdade do filho. Felippe fez pouco caso do pai de Gregório e disse que só liberaria a criança por 300 mil contos. O pai pediu auxílio ao bacharel Álvaro Fragoso de Albuquerque, que ajuizou ação e impediu momentaneamente a venda. Por ordem do juiz Novaes Júnior depositou-se 100 mil réis em juízo e deixou-se o menino escravo, magro e doente com o alferes José Gomes de Amorim Júnior, na condição de depositário, pois negro nessa época não era gente e sim objeto, uma mercadoria.

O mercador Felippe Máximo da Rocha Bezerra era bem relacionado na cidade. Tinha como advogado João Carlos Wanderley, ex-presidente de província por três períodos e tio e sogro do juiz Luís Carlos. Também era membro do tribunal do júri local e tinha suas viagens levando escravos para outras províncias devidamente registradas nos jornais da região. E anos depois, já durante a República, foi nomeado para a chefia dos correios de Assu. Em suma, o que se convencionou chamar de “um homem de bem”.

Posto isto, o juiz Luís Carlos Lins Wanderley de pronto emitiu uma ordem para que o “escravinho” voltasse às mãos de seu “dono”, sem chances de avaliar a ação e a possibilidade do pequeno negro permanecer com o pai. De pronto, o menino foi levado para Macau, onde seria embarcado com outros escravos. Todos seriam vendidos no Recife. O bacharel Álvaro Fragoso de Albuquerque ainda conseguiu uma ordem para que o menino não fosse embarcado no porto de Macau, mas não foi suficiente. Protegido por outro juiz substituto em Macau de quem cuidava dos “investimentos” na compra e venda de escravos, o mercador colocou todos os escravos em uma nau e os encaminhou para a capital de Pernambuco. Luzia perdeu seu filho e Francisco da Gama não conquistou a liberdade do rebento.

De todos os personagens da história apenas dois não têm sobrenomes (alguns dos quais podem ser facilmente reconhecidos por aí até hoje): a mãe e o filho.

Dois seres humanos sem “rosto”, sem origem. Esquecidos pelo tempo, massacrados por um sistema que desconhecia os limites entre o público e o privado, um sistema moldado para moer gente preta. Alguma semelhança com os dias de hoje, caro leitor e cara leitora? O que mudou?

Aos que chegaram até aqui, agradeço demais. E deixo o convite para as próximas histórias e reflexões sobre a vida do povo negro no Rio Grande do Norte.

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