CIDADANIA

Greve climática terá adesão em Natal, Mossoró e Caicó nesta sexta-feira e pede “descolonização”

Com o tema “Descolonize o Sistema”, a greve climática será realizada no Brasil nesta sexta-feira (24), com adesão de Natal, Mossoró e Caicó. Entrevistado do Programa Balbúrdia nesta quinta (23), o advogado, produtor cultural e líder climático, mentor da Climate Reality Brasil, Kaleb Melo, falou sobre a manifestação, que é fruto do movimento Fridays for Future (em português: sextas-feiras pelo Futuro). Haverá intervenção próximo ao Midway Mall, às 15h; em Caicó, às 14h30 e em Mossoró às 16h.

Também conhecido como Juventude pelo Clima, Greve Global pelo Clima, Greve das Escolas pelo Clima ou Jovens pelo Clima, trata-se de um movimento internacional de estudantes que faltam às aulas nas sextas-feiras para participar das atos que exigem ações efetivas para minimizar mudanças climáticas.

Surgiu com a jovem sueca Greta Thunberg, em 2018, quando a ativista iniciou uma greve. Em 2019, ela falou à Cúpula do Clima na ONU em Nova Iorque. A partir de então, iniciativas como a dela foram organizadas por milhares de estudantes, em diversos países.

De acordo com Kaleb Melo, o dia 24 é um convite a refletir os desafios impostos pela emergência climática ao Brasil, e ao mundo. Além disso, há sempre uma abordagem regional. No Brasil, o foco é a descolonização.

Na visão do líder climático, o país tem potencial para chegar a ser considerado de primeiro mundo, mas continua se submetendo a uma política colonialista.

“Nós continuamos sendo uma colônia de exploração, agindo como exploradores que aprenderam por serem explorados. A gente deveria estabelecer o valor e não pagar o preço. O cenário da gasolina que a gente vê é muito claro sobre isso. Como é que pode o Rio Grande do Norte, um grande produtor de combustível, a gasolina a sete reais?”, questiona.

Kaleb explica que a prioridade precisa ser o mercado nacional: “Como é que a gente exporta se a gente não atendeu o mercado interno ainda? Essa falta de respeito… nós temos as coisas e ao invés de dar valor, a gente permite que os Estados Unidos, estabeleçam preços pras nossas mercadorias, sem que a gente tenha atendido a nossa população”.

Rio Grande do Norte e a desertificação

Durante a entrevista, o representante da Climate Reality apresentou dados locais. O Rio Grande do Norte tem 98,42% do seu território propenso à desertificação. Isso significa grande ameaça à produtividade das terras e à capacidade de habitá-las. E Kaleb alerta que os motivos que causam essa desertificação não ocorrem apenas na área potiguar.

“Não existe fronteira para o ar, não existe fronteira para a água, não existe fronteira para os lençóis freáticos. E essa ligação que todos nós temos tem que ser também na governança”, aponta. “Que planos nós temos pra garantir que o Brasil vai trazer uma mitigância climática que atenda ao RN? A gente tem a energia eólica produzida aqui, mas isso não reflete na nossa realidade”.

O entrevistado do Balbúrdia também faz uma reflexão sobre o sistema capitalista e o consumo: “Não cabe mais o debate do lucro, quando o lucro de alguma maneira vai comprometer a qualidade de vida. Há que se pensar um novo modelo de capitalismo, onde esse lucro proporciona um estilo de vida mais feliz e abundante”.

Kaleb lembra que existem dois conceitos que se referem a correntes ideológicas: o preservacionista e o conservacionista.

O primeiro atribui a natureza ao sagrado. “Ele não entra em mecanismos de conservação que são permissivos à economia dentro daquele ecossistema.”

O segundo contempla o amor pela natureza, mas permite o uso sustentável dela, admitindo intervenções humanas harmônicas, com o manejo correto e visando a proteção.

“Eu acho que o conservacionismo é o único caminho pra gente falar de lucro daqui pra frente. É o contrário do que se imagina. Por conservar, você vai ter mais pra utilizar. Um exemplo bom disso, são as florestas que temos. A madeira a ser cortada e utilizada não afronta quem ama as árvores, como eu que sou ativista de árvores, porque elas existem pra isso, são um recurso renovável”, detalha, mostrando que o problema é a falta de gerência dos recurso.

“Quando eu tenho a reposição adequada, a conservação dos ecossistemas naturais e todo um plano de gestão é possível viver com abundância e consumindo cada vez mais”, diz, ao dar o exemplo da Europa que tem maioria das matas de reflorestamento.

Veja a entrevista completa:

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais