DEMOCRACIA

Greve geral no RN ataca cortes na educação e reforma da Previdência

A dentista Samara Martins levanta às 06h, todos os dias, para trabalhar. Nesta sexta-feira (14), a ativista deixou o conjunto Emanoel Bezerra, que por quatro anos foi uma ocupação habitacional do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas, no bairro Planalto, com outro destino: juntar-se aos integrantes da Unidade Popular, da qual é presidente estadual, e aos milhares de estudantes, professores, trabalhadores, centrais sindicais e movimentos sociais que aderiram à Greve Geral e protestaram contra as medidas de governo do presidente Jair Bolsonaro, em Natal. A concentração do ato aconteceu entre as avenidas Bernardo Vieira e Salgado Filho, por volta das 15h, e terminou na Árvore de Mirassol com atividades culturais.

Negra, da periferia e de baixa renda, Samara deixou o estado de Minas Gerais, onde nasceu, e ingressou na Universidade Federal do Rio Grande do Norte através do sistema de cotas raciais. “Um curso que é extremamente branco, que é extremamente rico, e eu tava lá na resistência tentando conseguir me formar”, contou. A mineira é remanescente de movimentos estudantis secundaristas e de centros acadêmicos. “Só a luta que muda a vida, se a gente não se juntar e mobilizar, a gente não vai conseguir mudar nada.” Entre as propostas de governo, ela critica a reforma da previdência e defende as mobilizações em defesa da aposentadoria.

“É uma reforma que desconsidera o trabalho visível que a gente também faz em casa, com os filhos, cuidando da família. Querem aumentar a idade pra se aposentar, querem aumentar o tempo de contribuição, como se nós trabalhadoras conseguíssemos contribuir 40 anos. É uma reforma que privilegia com certeza os ricos e desconsidera completamente nós pobres, nós mulheres, nós que temos inclusive um trabalho intermitente que fica mais tempo desempregada do que empregada”, desabafa.

Como Samara, há muitos. Segundo a contagem das entidades envolvidas na organização dos atos, 45 milhões de pessoas aderiram à manifestação em todo o país. Na capital potiguar, onde mais de 50 mil pessoas saíram às ruas, manifestantes exibiram, em faixas de protestos, críticas às novas imposições da reforma da previdência, ao ministro Sérgio Moro, que recentemente teve suas conversas vazadas pelo jornal The Intercept, e contra os cortes na educação pública anunciados pelo Ministério da Educação. A soltura do ex-presidente Lula e a defesa dos cursos da área de Humanas também foram lembrados em cartazes.

Em Mossoró, o ato contou com a participação de mais de 6 mil pessoas.

Mais de 50 mil pessoas saíram às ruas em Natal durante a greve geral (foto: Júlia Carvalho)

Funcionário Público Federal, Jeimes de Araújo participou, há mais de trinta anos, das mobilizações que concederam pela pela primeira vez na história o direito ao voto à juventude brasileira. Hoje, num cenário mais de 50 anos distante do período ditatorial militar, o filho de um pedreiro, acusado de seguir instruções comunistas na época, encontra similaridades com o período.

“É toda uma história que me faz ver que nós estamos no momento crucial da história. Pra quem conhece o ano de 64, e mesmo quem não viveu, dá pra saber o que foi. Há, agora, um desmonte de todo o Estado, de toda a estrutura de todos os programas sociais, e ele (Bolsonaro) e o congresso estão fazendo tudo para acabar com todos os direitos sociais que foram implementados nos últimos 15 anos. Eu vivi 64, eu lembro. Para além disso, o que me faz estar aqui é também o vigor dessa juventude. E tem que participar, tem que ir atrás porque senão se perde tudo.”

O funcionário público federal Jeimes de Araújo viveu os anos de chumbo em 1964 (foto: Júlia Carvalho)

Entre a juventude, maioria no ato, estava Liziane Dantas, de 15 anos. Aluna de uma escola estadual em Parnamirim, região Metropolitana de Natal, a estudante carregava o cartaz “Quando se nasce pobre, estudar é a maior rebeldia contra o sistema”, defendendo os investimentos nas instituições públicas de ensino, como o IFRN e a UFRN, onde estudam as irmãs, e espaços onde a adolescente espera também ingressar.

“Tenho duas irmãs, uma delas estuda na UFRN e a outra no IFRN. Os cortes nas bolsas, na educação, vão prejudicar instituições públicas e sei que isso vai impactar muito na vida delas que lutaram muito pra estudar numa universidade pública e no instituto federal. Educação não é gasto, é investimento”, disse Liziane que também pretende usar a política de cotas para cursar Direito ou Psicologia em uma instituição de ensino superior.

Também estudante do ensino médio em uma escola estadual, Elaine Cristina, de 17 anos, insistiu nas críticas ao bloqueio de recursos destinados ao ensino.

“Vim pra manifestação por mim, que quero entrar em uma universidade pública e pelos meus familiares que também querem. Não concordo com os cortes na educação. Educação é um direito e eu vim atrás dos meus”, disse.

A estudante Elaine Cristina defendeu a escola pública, gratuita e de qualidade na greve geral (foto: Júlia Carvalho)

Já estudante de Tecnologia da Informação na UFRN, Diego Filgueiras, de 18 anos, defende que os investimentos na área tecnológica, negligenciados pelo atual governo, são fundamentais para os avanços científicos no próprio cenário do país. O estudante carregou um cartaz com ensinamentos do educador Paulo Freire.

“É preciso conscientizar sobre a importância da educação pública, gratuita e de qualidade pra gente conseguir formar os brasileiros e ter um bom desenvolvimento tecnológico e moral, até. Se os cortes se manterem, a gente não vai ter verba pra continuar a pesquisa que tem grande importância tecnológica pra ajudar no desenvolvimento brasileiro.”

Diego Filgueira ergueu a bandeira do educador Paulo Freire na greve geral (Foto: Júlia Carvalho)

Professores de instituições públicas e privadas também fizeram coro às manifestações. Educadora em uma escola particular em Natal, Jaqueline Silva participou de todos os atos na cidade desde o anúncio feito pelo MEC. Segundo a historiadora, ensinar aos alunos as grandes revoluções que trazem os livros de história, lhe dá também a obrigação pessoal de fazer história.

“Enquanto a gente ensina história, a gente faz história. Pra ter um exemplo é preciso que eu dê. Eu venho, mostro pra eles como é que se faz fora da sala de aula pra quebrar esse mito de que história é algo decorativo, o nome disso é democracia também”, conta. “A gente luta contra o desemprego que os cortes vão trazer, contra a diminuição da qualidade de ensino e pela educação de base. Se a gente não começar a gritar agora, nem que fique sem voz até o final, a gente não vai ter uma resposta digna dentro da educação. Trago meus alunos em cada grito.”

Docente da UFRN, Oswaldo Negrão ensina Saúde Coletiva no Departamento de Nutrição da universidade. Fora das salas, a luta em defesa da constitucionalidade de políticas públicas também ganha espaço nas ruas. Segundo o professor, é preciso unir classes trabalhadores e estudantes em defesa dos direitos ameaçados.

“Há o desfinanciamento do SUS ao mesmo tempo em que há o corte de recursos na universidade e na educação como um todo, há o Fundeb ameaçado, os recursos dos IF’s ameaçados e a reforma da previdência que tira direitos. É um problema estrutural, todas as garantias estão ameaçadas, e na conjuntura passa a ser subversivo lutar por direito que já temos”, disse.

Também defensora do Sistema Único de Saúde e contrária à reforma da previdência nos moldes impostos pelo atual governo, Rita Xavier é ex-estudante do IFRN e servidora pública da saúde. A potiguar criticou, em cartaz, a atuação do atual Ministro da Justiça Sérgio Moro.

“Estou aqui como mulher, como trabalhadora e como mãe. Com a PEC do congelamento dos recursos pra saúde e pro SUS, a gente sente que vem a cada dia piorando a prestação de serviço pra população. Então, com esses recursos congelados por 20 anos, vai prejudicando a assistência. De certa forma, é um projeto dele de querer privatizar o SUS, acabar com o SUS e que o pobre morra em casa. É isso que ele quer“, desabafa.

Rita Xavier é defensora intransigente do Sistema Único de Saúde

Manifestações no interior

Pelo menos outros 10 municípios potiguares também registraram atos no dia da Greve Geral. Foram eles: Pau dos Ferros, Apodi, Baraúna, Currais Novos, Mossoró, São Miguel, Assú, Caicó, Nova Cruz e Macau.

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