CULTURA

Grupo Carmin leva Jacy para a internet e lembra quando isolamento social era apenas solidão

Uma mulher idosa que viveu em isolamento social e morreu sem se despedir dos parentes. A descrição que abre essa reportagem não tem relação com a pandemia nem define os últimos dias de vida de nenhum dos quase 100 mil mortos pela Covid-19 no Brasil. A mulher idosa tem nome: Jacy. Morou em Natal, mudou para o Rio de Janeiro atrás de um grande amor, voltou para o Rio Grande do Norte e morreu na solidão, hoje mais conhecida por “isolamento social”. É a personagem principal do premiado espetáculo Jacy, do grupo Carmin de teatro, agora adaptado a essa nova realidade.

“A frasqueira de Jacy” será apresentada sexta-feira (7), às 21h30, e contará em cena com o ator Henrique Fontes e a atriz Quitéria Kelly. A peça será transmitida pelos canais no Youtube do Grupo Carmin e também o Sesc São Paulo através do projeto #EmCasaComSesc. O enredo adaptado conta a história de uma idosa chamada Jacy e o contexto da cidade de Natal durante os anos de sua vida.

O espetáculo traz em sua composição nuances poéticas, políticas e críticas. Para Quitéria Kelly, trata-se de uma reflexão sobre o passado em relação presente. No enredo, Jacy é uma idosa que vive a solidão e morre sem parentes. A atriz afirmou que essa solidão é parecida com a que vivemos no período da pandemia e que muitas “Jacys” estão indo embora sem se despedir.

“Focamos na história de Jacy e nos momentos que ela estava sozinha. Enfatizamos quando ela saiu de Natal, foi para o Rio de Janeiro e voltou para Natal, para mostrar o passar dos tempos. Isso é igual ao que vivemos, de repente estamos em agosto, mais do meio do ano”, afirmou.

A atriz reforçou que o espetáculo revive a história da cidade, trazendo memórias afetivas e enxergando erros. Ela afirmou que é necessário ver esses pontos para que não haja repetição das ações no futuro. Quitéria aproveitou e comparou o contexto político atual com o do período da ditadura militar, em que Jacy presenciou:

“A gente vai perdendo a história e o passado vai sendo apagado. A história de Jacy é importante para que possamos rever e não perder a história da gente, e a nossa é a história do lugar em que a gente vive. Se olhar para o passado, veremos os erros para acertar no futuro, porque se não o erro se repete”, afirmou a atriz.

Adaptação temporária

Assim como outros segmentos culturais, o teatro precisou se adaptar ao meio virtual para conseguir dar vazão à criatividade. Apesar das dificuldades, o meio teatral não se surpreendeu com os impactos provocados pela pandemia. O diretor e ator Henrique Fontes afirmou que o teatro já encara a desafios há muito tempo.

“Essa situação é inusitada, mas o teatro sempre viveu desafios. É um fato que o teatro vive na crise desde sempre, a pandemia é só mais uma”, esclareceu.

A atriz Quitéria Kelly concorda com o pensamento do diretor e ressalta que os desafios encarados vêm desde o momento em que as pessoas decidem fazer teatro, com a resistência da família, até o momento de chegar ao público espectador. Ela afirmou ainda que muitas vezes os desafios são estranhos, mas que é preciso saber se adaptar. Em relação à peça, Quitéria diz que foi resistente à ideia de apresentar no meio virtual por não considerar teatro. Porém, sentindo a necessidade de comunicar e expressar, se rendeu e acredita que se trata de um formato em que contempla todos as formas de fazer arte, como o cinema.

“Essa pandemia tem feito a gente ficar na pandemia como em uma montanha russa de medos. Eu fui resistente à proposta de trazer Jacy para o virtual. Para mim, isso não é teatro. Porém, fui observando pessoas se arriscando e a vontade de comunicar, pois é isso que move o artista. E com o aumento disso, estamos conseguindo encontrar formas para se expressar. Teatro é resistência e sempre foi, desde quando alguém decide fazer teatro até a conquista de público. Não é uma pandemia que vai limitar nossa criação”, pontuou a atriz.

Henrique Fontes não considera essa adaptação como uma reinvenção. Para ele, essa palavra tende a normatizar o teatro a poucas condições de fazer espetáculo, como a limitação de espaços. O ator acredita que essa será uma adaptação temporária, mas que espera voltar o mais breve aos palcos físicos:

“Não estamos nos reinventando, estamos nos adaptando de forma temporária devido à crise sanitária. Mas, lutar para que possamos ter condições sanitária e possamos voltar o quanto antes. Vejo que os artistas buscam encontrar possibilidade nessas brechas, mas que nada substitui o teatro presencial”, afirmou o diretor.

Os dois acreditam na ideia de que a experiência de ir ao teatro é mais do que estética, mas social. De poder encontrar pessoas, olhar nos olhos, sentir o cheio, calor e presença.

A frasqueira

O objeto que dá nome ao projeto foi encontrado há 10 anos na avenida Prudente de Morais, em Natal. Henrique foi quem a encontrou, com diversos documentos de uma pessoa chamada Jacy. A partir daí, começa uma investigação sobre a história dessa mulher e do contexto em que estava inserida. E nesse ponto que surge a peça “a frasqueira de Jacy”. A obra teatral abordará esses pontos durante a apresentação. O espetáculo acontece no ano em que Jacy completaria 100 anos.

Serviço

“A Frasqueira de Jacy”

Data e hora: Sexta, 07.08 às 21h30

Onde: youtube.com/grupocarmin ou youtube.com/sescsp

Quanto: gratuito, pelo projeto #emcasacomSesc

 

Grupo potiguar Carmin apresentará espetáculo virtual nesta sexta-feira (07)
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Allan Almeida
Jornalista potiguar em formação pela UFRN.

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