CIDADANIA

Guarapes e Redinha são os bairros com maior índice de letalidade por Coronavírus em Natal

Guarapes e Redinha são os bairros em Natal onde uma pessoa infectada por Covid-19 tem maiores chances de morrer. No Guarapes, na zona Oeste da capital, a cada 100 pessoas testadas positivamente, 20 vão a óbito. O índice de letalidade no bairro é de 20%, número quatro vezes maior que a média da Organização Mundial de Saúde (OMS), de 5,4%. Já na Redinha, este índice de letalidade está em 10,6%, indicando um óbito para cada 10 pessoas infectadas.

Outros bairros na região metropolitana também apresentam um índice de letalidade acima da média da OMS, como, por exemplo, os bairros de Bom Pastor, Lagoa Seca, Dix-Sept Rosado e Nordeste, em Natal, e os bairros Olho D’Água e Golandim, em São Gonçalo do Amarante.

Na primeira etapa do estudo que chegou a essa conclusão, os pesquisadores da Universiadde Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e Universidade Federal do Ceará (UFC) já demonstravam que o índice de letalidade está associado à renda. Nesta fase, a pesquisa se concentrou nos bairros mais críticos do momento.

Ao compararmos a renda do Guarapes de aproximadamente meio salário mínimo à média salarial de outros bairros cuja média é de pouco mais que um salário mínimo, vemos uma situação muito grave. Em comparação, em Petrópolis, o bairro com maior renda média na capital potiguar, a cada 100 pessoas infectadas cerca de 2 morrem, pois o índice é de 1,83%, cerca de 10 vezes menor que em Guarapes”, explica o pesquisador do Departamento de Física da UFRN José Dias do Nascimento Júnior.

Além dele, também articiparam do estudo os pesquisadores César Rennó-Costa (IMD-UFRN); Leandro Almeida (Física – UFRN); Renan Cipriano Moioli (IMD – UFRN), José Soares (Física – UFC), Humberto Carmona (Física – UFC),   Wladimir Lyra (NM, USA). Também colaboraram Ricardo Valentim (LAIS/UFRN), Ion Andrade (LAIS/UFRN).

Outros bairros com renda média alta, como Capim Macio, Tirol e Lagoa Nova, apresentam taxas de letalidade ainda mais baixas que a observada em Petrópolis, o que não ocorre com nenhum bairro com baixa renda média. No caso de Ponta Negra, por exemplo, a cada 100 pessoas infectadas, cerca de 3 morrem, pois o índice é de 2.6%. Já em Capim Macio, o índice é de 1.64%.

O resultado foi obtido com base na correlação entre dados georreferenciados, rede de contágio, vulnerabilidade e transmissibilidade na região metropolitana de Natal.

“Os dados reforçam a importância de políticas públicas para a redução de desigualdades. A tragédia de uma morte afeta toda a família, inclusive do ponto de vista de capacidade de renda. É um ciclo perverso que atinge sobretudo as famílias mais pobres.” explica o pesquisador Renan Moioli, do Instituto Metrópole Digital.

“Sendo a renda fator determinante na letalidade, os dados analisados para a cidade de Natal mostram que as consequências desta epidemia são devastadoras em algumas regiões da capital, nas quais os índices de vulnerabilidade da população são mais altos que a média”, pontua José Dias.

Na fase atual do estudo, os pesquisadores da UFRN e UFC analisaram os dados epidemiológicos e a letalidade da doença focados em zonas específicas. Os mapas apresentados pelos cientistas desenham um panorama da letalidade e do desfecho da doença nos bairros de maior vulnerabilidade com dados integrados até o dia 11 de junho de 2020.

– “Guarapes e Redinha possuem uma rede de contágio e vulnerabilidade que favorece uma grande letalidade da Covid-19. Estes bairros, com maiores índices de letalidade por Coronavírus, deveriam ter sido o foco das ações recentes da prefeitura de Natal, que segue na contramão do que se espera. A testagem rápida, de forma seletiva por carros, gera uma grande quantidade de vieses interpretativos”, destaca Nascimento.

O Mapa da desigualdade produzido para Natal mostra que a remuneração média mensal das pessoas é fator determinante. “Os gestores de Natal, região metropolitana precisam de foco neste ponto. É na região metropolitana onde é visto hoje o maior agravamento da doença. Algumas medidas estão na contramão dos dados”, disse o pesquisador.

 “A baixa renda é um fator de risco, pois funciona como uma espoleta para uma série de fatores subjacentes como acesso à saúde, qualidade espacial do isolamento, impossibilidade de ficar em casa, rede dinâmica de contágio em transportes públicos, e outros. Estes são somadas as predisposições dos fatores da saúde já conhecidos, como os problemas cardíacos, diabetes, sobrepeso, idade. A combinação é fator determinante”, pontua Nascimento.

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