OPINIÃO

História de terror pra ninar gente grande

A história oficial é voz de vencedores e serve para ninar gente grande. Adormece os olhos e as línguas dos novos filhos da nação. Ah, lá isso todos sabemos quando fugimos também dessa história e nos embalamos com os contos de quem aumenta sempre um ponto. O relato tem um impacto emocional tão grande que às vezes choramos com jornal nacional por aquilo mesmo que nem quisemos olhar pela manhã nas nossas calçadas…

A história nos conta nas escolas que veio um branco na grande nau vestindo uma armadura. E o brincante Antônio Nóbrega reata nossos vínculos com a realidade social e diz que o branco apontou para nos pegar e, assim, pressentindo a fome e a sede, pulamos da rede e “de borduna já na mão”, sentimos, “no coração, o Brasil vai começar”.

E a história começou o Brasil falando de descobrimento quando fomos é mesmo invadidos, conquistados, explorados, massacrados. Mas como somos teimosos! O samba-enredo da Mangueira, o hino carnavalesco do Brasil em 2019, arranca do esquecimento o heroísmo dessas maiorias que a força não conseguiu extinguir, como diz a compositora Manuela Trindade Oiticica, a Manu da Cuíca. 

Então, nós descobrimos que temos cara de cariri, gente e língua que viviam no nordeste do nosso continente quando ainda não era nem América do Sul. Éramos tapuias, os bárbaros exterminados de ontem, os aculturados de hoje, nem sabemos mais que língua era aquela. Ainda assim, somos também Dandara, a guerreira negra do Brasil Colonial, a capoeirista casada com Zumbi dos Palmares, a insubmissa que se suicidou para não voltar a ser escrava. Lutamos por nossa liberdade como “um dragão no mar de Aracati”, somos o Chico da Matilde, jangadeiro que não se bestializou e se negou a transportar escravos do nordeste para o sul do Brasil. Na virada do século XIX para o século XX, navegamos em sua jangada para a história dos heróis desconhecidos. E somos Maria Felipa, pescadora e vendedora de mariscos da Ilha de Itaparica, na Bahia, que liderou uma insurreição contra os portugueses entre 1822 e 1823. E somos Luísa Mahin, escrava que comprou sua alforria e tomou parte na articulação de todas as revoltas e levantes de escravos da província da Bahia no começo do século XIX. 

Se a história pudesse imaginar! Se? Ela imagina e oculta. Por isso, sabemos tão pouco sobre a Revolta dos Malês, que aconteceu também na Bahia em 1835 e gerou muito medo nos brancos. Já naquela época, podíamos, os negros, ter tomado o poder. Se assim fosse, talvez Marielle Franco não houvesse sido assassinada no Rio de Janeiro em 2018 por dar sua voz a essas maiorias sufocadas nas três letras das favelas cariocas: UPP.

Grande hino, esse da Mangueira, chegando no momento certinho dessa história que nos contam para que nós não possamos contar. Fez bonito, Manu. “Mulheres, tamoios, mulatos – eu quero um país que não está no retrato”.

Eu também assino embaixo.

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