OPINIÃO

História: substantivo feminino

Outro dia visitei o Palácio da Cultura – Pinacoteca do Estado do Rio Grande do Norte. Foi a primeira vez, no alto dos 22 anos de vida, que entrei lá. Na minha infância, não fossem os escassos passeios escolares, não chegaria a conhecer um por cento do patrimônio histórico/cultural potiguar. Cresci na periferia de Natal e não estava exatamente na ordem do dia o capital cultural das crianças. Em que pese a importância e necessidade de denunciarmos esse problema que segue atual, não é sobre isso que quero escrever hoje.

Nessa visita a Pinacoteca, além das belíssimas exposições de diversos artistas norte-rio-grandenses, notei que nas paredes em que constavam retratos de “personalidades” políticas do RN (por assim dizer) não havia quase nenhuma mulher. Dezenas e dezenas de quadros de maioria masculina esmagadora. Por óbvio, fiquei muitíssimo incomodada. Aos 22 anos, militante feminista, sei que as mulheres têm tanta capacidade quanto os homens de ocupar espaços políticos – algumas até em condições mais adversas (equilibrando duplas ou triplas jornadas, cuidando da família, da casa, etc.). Entretanto, confesso, é possível que há 10 anos atrás, entrando no mesmo lugar, não chegasse a essa conclusão.

Há 10 anos, por volta de 2008, visitei a Câmara Municipal de Natal, em ocasião promovida pela Escola Legislativa. Lembro bem que havia muita euforia entre as crianças para conseguir autógrafos dos vereadores (julgávamos ser o mais próximo de “celebridades” que chegaríamos). Não peguei autógrafo de nenhuma vereadora, o que é bastante compreensível ciente agora de que naquela legislatura haviam apenas duas vereadoras, do total de 21 eleitos. Naturalmente, há 10 anos, é possível que eu tenha chegado à conclusão de que a política era um espaço para poucas mulheres.

Não, não me falaram de Celina Guimarães ou Alzira Soriano. Para ser sincera, sequer em outras áreas tive exemplos de mulheres notáveis. Até a conhecida Nísia Floresta, para mim, não passava de um município. Quem dera pudesse ter conhecido a luta de Clara Camarão ou as poesias de Auta de Souza, mas a verdade é que cresci com poucas possibilidades acerca do que uma mulher pode fazer. Sei que incontáveis mulheres potiguares cresceram assim também.

No dia em que entrei em uma sala repleta de retratos de homens ditos memoráveis, quis tirar uma foto. Me posicionei entres os quadros menos para lamentar a expressão da desigualdade de gênero ao longo dos anos e mais para lembrar que a história é dialética. Um dia, outras meninas entrarão lá e se referenciarão em tantas gerações de mulheres potiguares que lutaram (e lutam) para que no futuro o nosso feminismo não seja mais necessário. Que arranjem paredes que nos caibam também!

“Ô abre alas que as mulheres vão passar!”

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Camila Barbosa
Camila Barbosa é pedagoga formada pela UFRN e militante do Coletivo Feminista Juntas.

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