OPINIÃO

Histórias do futebol

Essa semana um ex-colega de redação, amigo querido, relatou um fato envolvendo meu tempo de bola. Quando eu era o Edmo, jogador do Alecrim que, segundo outro ex-parceiro de DN, esse o sem vergonha, gaiato Duda Maia, também fotógrafo, repete a história de que nunca conseguiu fazer uma foto minha, pois quando chegava no estádio, por conta do corre-corre de redação, o jogo em andamento, eu já havia sido expulso. Safado caluniador! Sim, mas vamos à história de FC (não vou entregar geral). Me contou o filho do alecrinense que sempre acompanhava o pai nos jogos do meu, deles, time verde. Ambos faziam parte da pequenina e apaixonada torcida do periquito, e quase todas as vezes ia feliz para o Machadão. Certa quarta-feira,  mesmo dizendo que ia “ver Edmo jogar”, estranhamente, seu pai não o chamou, até disse que não poderia levá-lo dessa vez. Pois bem, por conta dessa partida o seu velho passou três dias sem aparecer em casa. Quando voltou, a mãe, na sua tranquilidade e paciência perguntou: “menino, esse Edmo estava jogando até agora?”

Descobriu-se, muito tempo depois, que esse “jogo” tinha sido na cidade de Currais Novos. E por conta dele, esse meu amigo ganhou um irmão que, até hoje, não chegou a conhecer.

Histórias do futebol.

Aí, me desculpe, deslancho e vou lembrando outras.

Era 1973. Força e Luz em alta em Natal, sendo bancado pela Cosern, estatal de energia que Garibaldi Alves (MDB) vendeu, estava brigando pelo título com ABC e América. Ranilson Cristino era o supervisor e a equipe trouxe um reforço de peso do futebol pernambucano: João Paulo, “João Porquinho”, volantaço craque de bola. Ele, no entanto, ao chegar em Natal, ficou sabendo que o Porto de Portugal estava interessado em seu concurso e recebeu uma proposta para jogar na terra do Além Mar. Nessa época era um sonho especial, ainda mais para quem jogava no pobre Nordeste. Gelou, no entanto, quando o empresário disse que a direção só contrataria jogadores abaixo de 23 anos. “João Porquinho” já estava com 33, em final de carreira, cinco filhos e só dívidas. Não tinha uma casa para morar. Correu até a “raposa velha” Ranilson Cristino, aperreou, cercou, pediu pelos filhos, netos, por Deus e a Virgem Maria para Ranilson ajudá-lo. Cristino cedeu. Tirou novos documentos do pernambucano diminuindo nada menos que dez anos de sua idade. O Porto contratou um negrinho, torado no grosso, cara de menino, mas futebol de “gente grande”, segundo as manchetes dos jornais portugueses. João Paulo foi embora e o que se sabe é que, feliz, vida feita, encerrou a carreira dez anos depois.

Essa é de 1974. O mesmo Força e Luz de Ranilson Cristino. Zeca, volante bom de bola (dizem que teve um jogo do Sport que ele marcou Zico) que veio de Recife chega chorando copiosamente na concentração. Dona Amélia, cozinheira, tia querida por todas, conforta o rapaz desesperado. A notícia triste: morreu o pai de Zeca. Ainda fungando, cara amassada, Zeca pede dinheiro a Pedro Pierre, querido e saudoso dirigente da época, suficiente para a viagem, enterro, enfim, as despesas. Zeca foi enterrar o pai. Passou três dias em Recife, voltou já confortado, parecia o jogador brincalhão e piadista de sempre. Passaram-se algumas semanas. Certo dia, a equipe concentrada, amanhecendo o dia, já cuidando do café da manhã da rapaziada que dormia, Dona Amélia ouviu baterem na porta. Abriu a parte de cima (as velhas portas divididas) e deu de cara com um senhor idoso, todo vestido de roupa branca, barba por fazer.

– Pois não, o senhor deseja falar com quem?

-Eu queria falar com meu filho, ele se chama Zeca e está jogando nesse time daqui de Natal – respondeu o velhinho esquisito.

A pobrezinha da velha sentiu o sangue gelar, as pernas fraquejaram, os cabelos todos se arrepiaram, ficou pálida, mas ainda conseguiu se recuperar e gritar ao mesmo tempo que corria pra dentro da cozinha: “gente, gente pelo amor de Deus me acuda, o fantasma do pai de Zeca…! O fantasma do pai de Zeca…!

Imagine uma situação dessa de madrugada, na sua porta, uma pessoa que você tinha certa como morta.

Por conta da mentira do atleta pernambucano, a pobre Dona Amélia quase morre do coração. Ele, além de levar um sermão de meia hora do velho pai, ainda foi multado em 40% do salário pelo dirigente Pierre que chegou mesmo a pensar em demití-lo.

Essa ocorreu em 1978. Currais Novos. Força e Luz. Esse foi especial. Minha primeira partida no time profissional do time elétrico, ao lado de Bastos, Wilde, Babau, Zoca, Carlinhos, Itamar, Valdeci Santana, Arandir, Burunga, Elson…mestres queridos que nunca vou esquecer.

Hotel Tungstênio lotado, portanto, fomos para um hotelzinho mais barato no Centro da Cidade. Bastos se senta na sala enquanto eram arrumadas as instalações. Um senhor, cabelos brancos, se aproxima e, como todo bom interiorano, inicia uma conversa com o nosso goleiro.

– O senho joga de quê? – perguntou a Bastos.

– Jogo de chuteira, meião, calção, camisa…-responde já fazendo troça o Bastião.

– Não, não, tô perguntando a posição que o senhor joga? – insistiu o velho senhor.

– Ah, sim, sei. Eu jogo em pé, jogo em pé mesmo – respondeu o sacana ainda tirando sarro.

O velhinho, enfim, notou a zombaria do goleiro e, vermelho, enfurecido, só não o chamou de “carne assada”, exigiu respeito, esculhambou, desabafou e expulsou todo mundo do hotel.

Ele era o dono.

Ranilson Cristino ficou fulo da vida com Bastos, mas teve que, no meio da noite, procurar outro lugar para ficar.

Era 1984. Fortaleza. Eu jogando no Ferroviário, esse mesmo Ferrim que subiu pra Série C. Fui contratado em final de Brasileiro, Campeonato Nacional naquela época. Rio de Janeiro e Coritiba, mordomias, mas veio a desclassificação. Voltamos à realidades dos amistosos pelo sertão enquanto o Estadual não começa.

Morávamos em cinco numa pensão. Eu, Dario, de Recife, Biroguenta e Sussu, de Campina Grande, e Júnior Xavier, de Mossoró, RN, potiguar como eu. O super craque Júnior Xavier. A pensão era paga pela direção e também responsável pela feira do mês. Pois bem, a situação era a seguinte. Alberto Damasceno fazia as compras para sete pessoas, nós cinco, e dona da pensão e sua empregada/agregada/amiga, sei. As compras não duravam cinco dias. No dia que batia na despensa, quando a gente chegava do treino a casa estava lotada. Namorado, irmã, marido da irmã, amigos, enfim…uma turma atacada com o baralho em embates que varavam a noite. Resultado? Comiam tudo. O resto do mês, muitas vezes, íamos treinar, sem mentira, com chá de folha de laranja no bucho para, quando voltar, almoçar ovo com farinha, pra ser feliz. A gente reclamou, uma vez só: a mulher soltou os cachorros, ameaçou mandar todo mundo embora e disse que o “dirigente ladrão” enganava ela e tal e coisa, e que gostava da gente, fazia por amizade e etc…aguentei um mês. Não tinha um infeliz de um bodegueiro que me vendesse fiado um cigarro Belmont. Uma fome infeliz, a barriga roncando. Ficávamos, eu, Sussu e Dario de frente a uma padaria, tentando criar coragem para pedir fiado. Um dia Dario, já no desespero, quase, falou com o dono da panificadora: “tu é doido macho, vou vender fiado a jogador…?” e nada mais disse.

Aguentei um mês. Quando saiu o vale de complemento do mês que já estava atrasado 60 dias, arrumei meus tarecos, corri para a rodoviária e deixei uma carta para o supervisor Alberto Damasceno. Acho que foi o primeiro caso de um jogador fugir de um clube e deixar uma carta explicando. Sei que Ranilson Cristino teve que ir a Fortaleza falar com o supervisor, os caras queriam suspender meu contrato, e eu ficaria sem jogar até o final do ano. Acreditem, depois, nesse mesmo ano, segundo semestre, fui viver outra história de fome em Campina Grande.

Eu sei o que é isso.

 

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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