OPINIÃO

Humor e censura

Leio a notícia (publicada aqui mesmo no site do SaibaMais pelo nosso querido editor) acerca do episódio em que, durante uma apresentação, o humorista Gustavo Mendes teve seu show interrompido, contando até mesmo com a presença da polícia militar. Tudo porque algumas das pessoas se sentiram incomodadas com piadas direcionadas ao governo do senhor Jair Bolsonaro.

Evidentemente, o mais estarrecedor que tal episódio nos mostra é a existência de pessoas que aplaudem esse modelo de governo após mais de oito meses. Mas não é sobre isso que vou falar aqui e sim sobre a relação entre humor e censura.

A história está cheia de episódios que confirmam essa estreita relação e eu também já falei sobre isso em textos anteriores. Conforme o mesmo Gustavo Mendes comentou em vídeo postado depois do incidente, “humor é oposição”. Ótimo poder de síntese. De alguma maneira, uma piada, charge ou anedota coloca em confronto dois discursos, duas visões de mundo, duas representações de uma determinada realidade. Traz à tona, assim, uma enunciação subterrânea, não-oficial, clandestina. E toma partido. Às vezes a favor de um discurso reacionário, às vezes a favor de um mais revolucionário. Nesse sentido, todo humor é político já que ilustra um enfrentamento de “poderes”.

Um caso que ilustra muito bem a relação entre humor e poder na imprensa é o de Apparício Torelly, mais conhecido como Barão de Itararé, o “nosso querido diretor” do jornal A Manha, semanário criado para fazer contraponto ao “A Manhã”, de seu amigo Mário Rodrigues (sim, o pai de Nelson Rodrigues). O jornal, misto de noticiário e humor, durou de 1926 a 1959, com alguns intervalos de entremeio devidos à perseguição política.

Apparício representava, de algum modo, a máxima libertária que diz Hay gobierno? Soy contra. No livro-biografia de Cláudio Figueiredo, intitulado “Entre sem bater: a vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé” (editora Casa da Palavra, 2012), é possível saber mais sobre vários episódios da oposição que o Barão fazia incansavelmente por meio do humor.

Um desses episódios está ligado à crítica contundente que o Barão fazia ao integralismo, modelo político baseado no militarismo, autoritarismo e hierarquia, cujo chefe maior foi Plínio Salgado e que contou com o apoio de vários intelectuais da época, dentre os quais o cearense Gustavo Barroso e o norte-rio-grandense Câmara Cascudo. Os integralistas eram conhecidos por afirmarem em público sua ligação ao integralismo por meio do uso de uniformes e se autodenominavam “camisas-verdes”. Queriam o mundo igual, linear, homogêneo. Não toleravam um debate e uma divergência. Com seu espírito crítico, calhou ao Barão apelidá-los de “galinhas verdes”, apelando para um riso de franca zombaria através da ironia e do nonsense cômico:

– Dada a cor neutra, a camisa fascista pode ser usada pelo decurião durante um mês consecutivo. O caldo da lavagem, depois desse período, também pode ser aproveitado industrialmente em conservas raras e de fino paladar, o que lhes dará um gosto em que refletirá a influência do chefe, isto é, ligeiramente salgado.

Não à toa, por conta dessa verve humorística, o Barão foi detido inúmeras vezes, além de sofrer com a censura às suas matérias e ter edições do jornal apreendidas. O título do livro mencionado acima, aliás, faz alusão à agressão sofrida pela polícia política do Estado Novo: “entre sem bater”, mandou escrever na placa presa à porta de seu escritório.

O que demonstra, aliás, que a oposição do humor do Barão se referia a tudo e não só a tendências político-partidárias: a paródia a frases feitas e provérbios demonstra o embate que o humor pode fazer a determinadas visões de mundo já cristalizadas como “normais” e “certas”. Cito algumas:

“Quem empresta, adeus”.

“Tempo é dinheiro. Paguemos, portanto, nossas dívidas com o tempo”.

“Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo”.

Sim, estou com Gustavo Mendes: humor é oposição. E questionar, problematizar e polemizar não necessariamente é ofender. Não achou a piada engraçada? O riso, assim como o choro, é livre. Não gostou, não ria. Não é preciso impor aos outros uma noção de engraçado.

Nem a de um mundo triste e sem graça. Aquele mesmo do qual o Barão falou: “o mundo é redondo, mas tá ficando muito chato”.

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