OPINIÃO

Humor e embriaguez em tempos de pandemia

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Mais um mês chega ao fim e continuamos aqui no confinamento. No meu caso, continuo também na coleta de textos humorísticos (memes, charges, vídeos, postagens cômicas etc.) sobre o tema da pandemia. Acredito cada vez mais, como o escritor e humorista português Ricardo Araújo Pereira, que o humor é um modo especial de olhar para as coisas e de pensar sobre elas. Tanto é assim que o humor pode ser abordado em diferentes perspectivas teóricas (sociológica, filosófica, psicanalítica, linguística etc.).

A pandemia, pois, não poderia deixar de ser mote para o humor, com as novas rotinas e os hábitos cotidianos que o isolamento social veio impor.

O consumo de álcool e seu suposto aumento se incluem nessa gama de rotinas de isolamento, como bem pontuou o colega Cefas Carvalho, ao que eu acrescentaria que não só a casos de violência doméstica e de depressão se associa tal consumo, mas também à inventividade humorística das pessoas, que encontram aí uma válvula de escape, para além de qualquer juízo de valor.

Assim, esse velho tema (quem nunca ouviu uma piada de bêbado?), que já rendeu tipos do quilate cômico de Mussum e Rê Bordosa, se reatualiza em novos exemplos, tais como esses:

E que se ressalte: o humor não se reduz a dizer se um determinado texto (ou cena, acontecimento etc.) é engraçado ou não, está mais ligado a fazer uso de um procedimento regular de linguagem visando ao riso de outrem. Se rimos ou não, aí é outra questão.

A questão maior que importa aqui é que humor e embriaguez são condição humana. Podem até ser abordados em sua relação com uma boa civilidade (até onde há humor e até onde há ofensa pelo riso? Até onde beber não se constitui como imposição publicitária e problema de saúde pública? etc. e tal), mas pensemos, a esse respeito, por exemplo, em elementos como o bebê que ri em tenra idade ou como os vestígios milenares que atrelam a fabricação de bebida a algo tão antigo quanto a própria invenção da agricultura.

Eu, de minha parte, não posso deixar de me lembrar de Nietzsche, que um dia propôs um paralelo entre dois deuses gregos e duas características viscerais do ser humano – a capacidade de sonhar (apolínea) e a capacidade de embriagar-se (dionisíaca). Enquanto sonhamos, vivenciamos a precisão e a medida das imagens oníricas únicas e individuais; já enquanto nos embriagamos, libertamo-nos da individualidade e dissolvemo-nos no todo do mundo, vasto mundo.

E assim ouso especular: talvez, rir por meio do tema da embriaguez seja um modo de consagrar essa dissolução na multidão que celebramos, mesmo isolados.

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