OPINIÃO

Humor e estereótipos

Assisto, entre envergonhada e enfurecida, ao vídeo em que o presidente aí posto proclama, em visita a Bahia, que para se tornar nordestino só lhe “falta crescer um pouquinho a cabeça”. Não tem jeito: por mais que a gente pense que ele não se supera mais, a cada dia vem uma bomba nova de truculência e tacanhice.

Esse episódio constrangedor me fez lembrar outro: estava eu atolada no Facebook certa feita quando cometi a besteira de comentar uma postagem boba: uma fotografia de uma casa cuja fachada representava uma serpente e uma piadinha afirmando que o pedreiro que a construiu quis homenagear a sogra. Digitei sem pensar: “machismo disfarçado de humor”. Evidentemente, choveram comentários depreciando minha opinião e é sobre isso que quero aqui falar: um tipo de humor que deprecia.

Entre 2014 e 2016, publicada em livro com o título “Notícias da Jerimunlândia”, realizei uma pesquisa sobre jornais e colunas humorísticas da imprensa natalense na chamada “belle époque”, aquela virada de século XIX para o XX em que, sob o domínio da oligarquia dos Albuquerque Maranhão, Natal pretendia ser “civilizada” como a França, como no resto das capitais no país, aliás.

As piadas e anedotas mais recorrentes faziam chacota sobretudo com dois tipos, que eram sempre retratados visando àquilo que Vladimir Propp chamou de “riso de zombaria”, um riso que desqualifica e rebaixa. Aquele riso em que não se ri com alguém, mas sim de alguém. Zombava-se principalmente de poetas e de mulheres. Os poetas eram chatos, pedantes e verborrágicos. Já entre as mulheres, estavam as moças casadoiras feias, as casadas burras e as sogras megeras. Nada menos banal que a muito gostosa e pouco inteligente de programas como Zorra Total.

É que os enunciados têm História. Carregam em si histórias de conflitos entre grupos e posicionamentos, além de representações estereotipadas que refletem tais embates. Piadas que diminuíam (e diminuem) mulheres (tal como outros grupos, como negros, LGBT´s, nordestinos), pronunciadas (e digitadas) inocentemente reproduzem velhas relações de poder de outros grupos que se pretendem superiores. E passando adiante essa ou aquela piadinha, que muitas vezes não nos damos conta de que concordamos e reafirmamos essa suposta superioridade.

Eu cresci ouvindo essa história de que “cearense tem a cabeça chata”. E via algumas pessoas rindo e não entendia. Qual era a graça?

Há ótimos documentários que abordam essa questão dos estereótipos no humor. Um deles é o recente “Tá rindo de quê?”, dirigido por Cláudio Manoel em 2018. Com o depoimento de vários medalhões e ótimos quadros da época, o filme mostra o que era fazer humor em tempos de ditadura militar. Eis então a questão: se, por um lado, revistas, jornais e programas de TV burlavam a censura e protestavam contra o estado de exceção instaurado sobretudo depois do AI-5, por outro lado, apelando para os estereótipos, faziam um humor tão opressivo quanto aquele governo. Fica a dica.

Para terminar este artigo, pareço ouvir uma risadinha cínica a perguntar do outro lado: “mas cearense não tem mesmo a cabeça chata?”, ao que eu responderia: melhor ter cabeça chata do que não ter nem cérebro nem caráter.

Tal como o presidente aí posto.

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