OPINIÃO

Imaginário coletivo

De Columbine, na Flórida, Estados Unidos, a Suzano, em São Paulo, no Brasil, passando pela comunidade do Jacó, em Natal, o imaginário se apresenta como forma de transferência e construções coletivas arrematadas ao espírito aristotélico, onde os conceitos contaminados pelo vivido, difratam-se, interferem um no outro e deformam-se.

Os adolescentes envolvidos no massacre em Suzano, SP, segundo investigações, construíram uma idolatria à violência objetiva motivada por elementos de admiração a atos de ataques e assassinatos em massa. Construíram assim uma relação complexa e mais que planejada, fomentada e construída no seio das sociedades contemporâneas, na aparente civilidade familiar comum a qualquer família de classe média urbana. Entendendo que o imaginário é uma linguagem e que a fala imaginal é a vivência de experiências, muitas vezes, apenas acrescidas de forma subjetiva e indireta, como é o caso dos jovens que deixaram resquícios de uma admiração aos atores sociais envolvidos no caso de Columbine, com os quais, nunca tiveram contato real, servindo, assim, como fonte imaginária. Que essa referência simbólica despertou o imaginário coletivo e assim, disseminado e noticiado mundialmente. A partir desse pressuposto, tornando-se o elemento fundante dos atores no atentado em Suzano, logo, os agentes imaginais capazes de transformar o universo imaginário em fato realizado.

Tento nesse sentido estabelecer um discurso compreensivo, fazer por esforço desse artigo, que se move no sentido de tencionar a reflexão sobre o poder do imaginário contemporâneo, sobre as relações sociais em tempos de urgência e seleções algorítmicas, além da multiplicidade de construções e arranjos relativos a uma realidade que não difere nem se estabelece mais por distância geográfica ou cultural.

No imaginário, tudo se transfere e atravessa o comum pelo inconsistente arranjo de entendimentos e convivência humana na vida.

A mobilidade diversa é motivada, se atravessa de sujeitos ocultos, de elementos subliminares e de não ditos, porém, não impossíveis de serem percebidos. O imaginário pode-se ter leitura antecipada por percepção relativamente histórica, social e de referência vivencial. Daí entra o caso na comunidade do Jacó em Natal se fazer presente à discussão. Área adensada e de subjetivos interesses imobiliários, cravado no seio da cidade, arrodeado de edifícios, comunidade cujo moradores de baixa renda ocupam há resistentes 65 anos. Haveria de se perceber o imaginário relacionado à cultura de classe e de interesses econômicos subvertendo as motivações humanitárias de deslocamento dessa população do local ou de resolução de estruturas de seguranças a manutenção das famílias no local onde já tem suas vidas assentadas?

Foto: Vlademir Alexandre

Se o imaginário se expande por disseminação ou contágio é a partir do incremento imaginal do risco iminente que se pode envolver as pessoas na busca do mito da salvação, um campo, talvez dimensionado para ocultar os interesses de um campo do pensamento divergente, o dos que em suas ambições e desejos de poder e higienização social, buscam a urgente apropriação da área a fim de estabelecer a realização de interesses construídos a partir de suas demandas de classe e poder.

Por fim, está contido de Columbine a Suzano passando pela comunidade do Jacó, um imaginário coletivo transversal que carrega elementos subjetivos, ocultos, variados, relativos mas não imperceptíveis e que uma vez apropriados da capacidade de leitura, se abrem a porta da identificação na forma essencial da humanidade como fruto de um imaginário que se realiza. Uma vez que o entendimento sensível ao imaginário pode se ampliar, também se expande a compreensão dos fatores envolvidos, das influências ocultas e dos paradigmas expostos na profundidade da existência, não na superfície da objetividade alheia ao espírito.

“O homem é homem por construir imaginários que o impulsiona no processo infindável da humanização”

Retomando elementos de construção do imaginário como manifestação humana diferente da cultura, exatamente por não estar centrada na objetividade das reproduções de movimentos históricos tradicionais ou pela necessidade de aceitação e daí mesmo por uma demarcação identitária. O imaginário se move mais flexível e volátil, é um fenômeno transversal, não sistemático. Por isso os cruzamentos de impulsos culturais podem provocar manifestações do imaginário. Isso deva nos dar uma pista de como famílias tradicionais podem, em seus próprios familiares, haver, quem nos seus, ter atos de extrema divergência cultural. Mafesssouli dirá que o que move o imaginário é o que transfigura o estado de espírito, a errância humana.

Isto desafia o entendimento das distorções aparentemente comportamentais que dissonantes, tornam-se realidades para arte como para a extravagância de atos que subvertem valores culturais essenciais e ou, ainda, de posturas que ignoram a percepção ao outro com base nos valores tradicionais de respeito a vida, ao direito e ao humanismo.

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