OPINIÃO

Imbecis

Nunca fiz teste de QI. Nem conheço a gradação que define de quem o cidadão é parente próximo — de macacos ou de einsteins. Poderia googlá-la na Web, mas isso seria um modo indireto de reconhecer que estou na parte de baixo da tabela. Prefiro fazê-lo diretamente. Sou um imbecil, e do pior tipo: o que sequer cogita ocultar a própria imbecilidade. Não teria como mascará-la. Constato em mim evidências neolombrosianas do apedeuta.

Sou fumante de tabaco há mais de três décadas, o que significa, pela aritmética da boa vida, que abreviei a minha em pelo menos uma. Gosto de futebol — com o agravante de frequentar estádios para ver pelejas do tipo ABC x América. Leio (muito) e escrevi (pouco) poemas, o que, ontem como hoje, é certeza de doidice. Por fim, em tempos que pedem pelos holofotes e pela estridência, preferiria o apagamento e o silêncio. Sou o perfeito imbecil. E o pior: o que está em contradição consigo.

Se o generoso leitor concede-me a dádiva da dúvida, retruco com um último argumento: não só emito opiniões, como leio as dos contemporâneos, no que restou da imprensa analógica e nos inferninhos digitais que as contas do mês me impõem frequentar. E só mesmo um apedeuta esférico (como eufemisticamente se diz lá em nós) entraria nessa caverna de plutão (trocadilho é macaco ou einstein?) sem se incomodar com os espelhos.

Há de tudo um rosto. Imbecis apolíticos, que fazem a pior política: a política pior. Imbecis à direita, ao centro e à esquerda. Imbecis que acham que democracia é o governo de imbecis eleitos por outros (por essa lógica, ditadura seria o governo de imbecis escolhidos por eles mesmos). Imbecis que afirmam que uma república fardada é melhor que uma de terno e gravata, esquecendo-se de que na última ao menos é possível escolher a cor do quepe.

Imbecis municipais, estaduais e federais. Imbecis globalizados. Imbecis que pensam que cultura é vento, talão de cheque ou orelha de livro. Imbecis homofóbicos, misóginos, racistas, xenófobos, demófobos: alterófobos. Imbecis que confundem justiça com justiçamento, arte com merda, Quociente de Inteligência com Quociente de Imbecilidade.

Imbecis que acreditam em tudo — dos deuses aos diabos. Imbecis que não acreditam em nada, exceto na própria imbecilidade. Imbecis que duvidam da ida do homem à lua e da influência dela sobre os imbecis (no plenilúnio, eles viram inteligentes). Imbecis poéticos e poetas imbecis. Imbecis que escrevem em jornal, falam no rádio, mostram-se na televisão. Imbecis que escrevem, falam e mostram-se em blogs, sites e redes sociais.

Imbecis que têm vergonha dos jovens que foram — e imaginam matá-los tornando-se velhos imbecis. Imbecis que traem até as ideias que nunca tiveram. Imbecis que vão a todos os lugares do mundo mas não saem do lugar-comum. Imbecis perseverantes. Imbecis com o dom da ubiquidade. Imbecis numerosos. Por isso, sempre vencem. Nós sempre vencemos.

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Jornalista e Poeta