OPINIÃO

Imprensa esportiva, um signo de nossa debacle

Assistir os jogos da Copa do Mundo tem sido uma tortura, não apenas pelo predomínio quase absoluto de times mais com preocupações defensivas que ofensivas, tornando os jogos travados, lentos, modorrentos, quando não tão ruins de doer nos olhos (Arábia Saudita e Egito foi algo inacreditável), mas também pelo nível da cobertura da imprensa esportiva. Seja nos canais abertos ou fechados da TV, o monopólio de cobertura por parte da Rede Glob tem nos submetido a um jornalismo de péssima qualidade, marcado por uma estética dos anos oitenta, como chamou atenção o Deutsche Welle, jornal digital alemão em sua versão em língua portuguesa e coalhado de erros, equívocos, sandices, comentários bizarros e repetitivos. A Rede Globo levou cerca de 196 jornalistas para cobrir a Copa do Mundo, num derrame de dinheiro que dá ideia do que ela está recebendo dos patrocinadores, graças a uma exclusividade de transmissão conseguida através da corrupção e do pagamento de propina. Sua equipe é composta, por um lado, por uma equipe experiente, mas envelhecida em todos os sentidos, da qual a figurinha mais carimbada é o indefectível Galvão Bueno, que ninguém mais aguenta, com suas patriotadas, seu puxasaquismo, sua incapacidade de sequer ouvir a si mesmo, as bobagens que diz, que dirá aos demais. Assistir o jogo de uma seleção que ainda não jogou um grande futebol, que quase nos mata do coração para conseguir vencer a Costa Rica, tendo como narrador Galvão Bueno, faz com que inexoravelmente você desligue a televisão. Por outro lado, a Globo levou uma enxurrada de repórteres iniciantes, que cometem toda sorte de sandices, mostrando o descalabro que é, no geral, a formação dos jornalistas no país. Mas o pior fica por conta da equipe de ex-atletas, ex-técnicos e ex-juízes de futebol, que nos brinda com platitudes, lugares comuns, com um festival do óbvio ululante, muito próximo de quando davam entrevistas após as partidas.

A Rede de Globo e a Sport TV parecem desconhecer ou ignorar que televisão é imagem e que algum cuidado estético há de ter na escolha de quem coloca em frente a um vídeo. A prática que não se encontrará em nenhuma grande rede de televisão no mundo de, após as partidas, socar os rostos e os troncos de seus narradores e comentaristas quase dentro de nossas casas, apanhados de costas para o gramado, tendo as imagens, quase sempre já não muito agradáveis esteticamente, deformadas pela proximidade com a lente da câmera, com enormes fones de ouvido e microfones pendurados nas cabeças, é de uma breguice atroz. São imagens que dispensaríamos de ver, que poderiam ser substituídas por imagens das partidas, das torcidas deixando os estádios, com as vozes em off fazendo seu trabalho final de cobertura. O narcisismo e o personalismo dessas imagens diz bem do nosso tempo, quando todo mundo quer vir para a frente das câmeras.

A incultura de alguns comentaristas e narradores chama a atenção: as agressões à língua pátria se sucedem, o besteirol tem ampla produção. No jogo ruim entre Dinamarca e Austrália o narrador disse que a situação tinha ficado “mais melhor” para os dinamarqueses. Confundem os nomes das seleções que estão em campo, pronunciam os nomes dos jogadores de maneira incompreensível. As vezes que Luiz Carlos Júnior falou que o nome do estádio Lujiniki era com acento na última sílaba e não na segunda como dissera durante toda a cobertura da Copa das Confederações o ano passado, no jogo de abertura da Copa, mostra o deslumbramento com a descoberta de algo que já devia saber há tempos, era como se ele fosse uma criança que recebera um doce de presente. Também ficou maravilhado ao descobrir que o nome do principal jogador russo Golovin não se pronunciava como se escreve, mas como se fosse iniciado pela sílaba Ga, comentou isso várias vezes, deixando claro que algum professor de russo tentou reduzir sua ignorância às vésperas da partida. Hoje na partida França e Argentina, o mesmo narrador disse que a bola e o jogador tinham “saído para fora”. O motivo de tantos erros cometidos é que eles sofrem de uma compulsão verbal e narrativa, eles não podem parar de falar um só minuto. Galvão além de deitar falação, desautoriza e discute com os frágeis comentaristas e, enquanto isso, sua mão esquerda fica incontrolável, quase estapiando todo mundo. Ainda bem que, dessa vez, os comentaristas de arbitragem foram deixados nos estúdios e que Arnaldo Cesar Coelho resolveu se retirar. Os narradores parecem confundir televisão com rádio, ficam descrevendo as imagens que estamos vendo, como se estivessem transmitindo as partidas para deficientes visuais. Não se limitam a pontuar as imagens, mas aprontam uma gritaria como se fossemos todos surdos. Nesse quesito ninguém supera a equipe mais feia e barulhenta da imprensa esportiva: a do canal Esporte Interativo.

A cobertura do canal ESPN na hora das partidas beira o patético. Não tendo os direitos de transmissão das imagens, a direção da ESPN teve a genial ideia de colocar um grupo de jornalistas, comentaristas e convidados em torno de uma mesa, cheia de uma barafunda de objetos, umas máscaras que parecem o rescaldo de um baile de carnaval de terça-feira gorda, para acompanhar e comentar em tempo real as partidas. Os jornalistas ficam em frente a um monitor, que transmite obviamente as imagens da concorrente, com os pescoços duros, de olhos parados, falando o que vem à cabeça, com as palavras saindo meio travadas pelo canto das bocas. Quem liga a TV e não esteja avisado do que se passa há de pensar que aqueles rapazes sofrem de algum mal gravíssimo, de alguma sequela de acidentes automobilísticos. Dois outros jornalistas passam toda a transmissão em pé, em frente a uma tela que leva para a sala onde estão reunidos os comentaristas e fazem o maior esforço para nos convencer que sem imagem estamos acompanhando um jogo na TV, é inacreditável essa brilhante ideia. Toda a cena é ornamentada por uma tarja de enorme mau gosto estético onde se lê o resultado parcial da partida e o nome da atração imperdível: em tempo real. Muitas vezes ainda somos brindados com a grossura, a arrogância e o mal humor de Mauro Cesar Pereira e sua franjinha que não para de tentar arrumar, olhando com uma cara de má vontade para o vácuo à sua frente, onde devem estar sendo emitidas as imagens dos jogos. Às vezes parece que algo cheira mal, pois faz caras e bocas e movimenta o nariz como se um ar pestilento estivesse vindo do que vê. Quando ocorre um gol a reação é mais efusiva na tarja que desliza à nossa frente que entre os jornalistas. Se é jogo da seleção brasileira, a cobertura patrioteira da Rede Globo é substituída na ESPN por uma cobertura marcada, por vezes, pela clara má vontade, já que seus jornalistas costumam confundir a seleção com os desmandos e corrupção da CBF. Mauro Cesar Pereira costuma chamar a seleção, de seleção da CBF, quando não de seleção do Tite. Se de um lado temos o falso ufanismo de quem se beneficia do monopólio que exerce sobre a transmissão dos jogos da seleção, do outro temos, da parte de alguns, uma clara torcida para que a seleção não dê certo e confirme as suas profecias apocalípticas.

O vexame que a seleção da Alemanha deu nessa Copa fez com que boa parte de nossa imprensa esportiva que, há quatro anos, desde o fatídico 7 x 1, de 2014, a endeusava como exemplo de organização esportiva dentro e fora de campo, ficasse claramente constrangida e sem saber o que dizer.   A Alemanha foi durante os últimos quatro anos o ai Jesus de nossa imprensa esportiva, que a utilizava como exemplo para contrastar com o que seria a nossa desorganização, o nosso amadorismo, a nossa incapacidade de gestão esportiva. Embora a imprensa alemã, que parece fazer bem melhor o seu trabalho, viesse alertando para o fato de que os clubes alemães não conseguem ganhar, há um bom tempo, os principais torneios europeus, que a Alemanha não ganhava um jogo desde outubro do ano passado, que a seleção estava envelhecida e que a preparação fora caótica e cheia de problemas internos, os nossos deslumbrados jornalistas continuavam apontando a Alemanha como favorita e bicho-papão da Copa. O fato de ter ganho a Copa das Confederações do ano passado, com o que seria seu time reserva composto de garotos, fez com que nossa imprensa fosse ao paroxismo em suas loas aos alemães e sua impecável organização. Nem mesmo utilizaram para a Alemanha o mesmo critério usado para tratar do Brasil, que foi acusado de se deixar iludir, em 2014, pela vitória na Copa das Confederações de 2013. Mauro Cesar Pereira com sua particular boa vontade em relação à seleção brasileira chegou a dizer que Copa das Confederações não valia nada. Mas quando se trata dos alemães ela valia para mostrar sua impecável estratégia de preparação para o mundial. O que se viu, iniciada a Copa, foi uma seleção alemã confusa, mal distribuída em campo, com jogadores que pareciam se deslocar em câmera lenta, sem nem mesmo apresentar aquela tradicional disposição de luta comum aos alemães. O técnico deixou jogadores que fizeram uma grande temporada em seus times fora da seleção, como Leroy Sané, e levou nomes que não sabíamos porque estavam ali. Um goleiro que passou quase um ano machucado e sem jogar torna-se titular como se tivesse cadeira cativa. Além de demonstrar insegurança no gol, saiu desesperado e em desabalada carreira na direção do gol da Coreia do Sul, no final da partida, deixando a meta aberta e à disposição do atacante Song, que fez o segundo gol e mandou a exemplar Alemanha para casa, depois de 16 copas em que não saía numa primeira fase de Copa. Os argumentos para justificar o fracasso alemão apelaram até para o sobrenatural: a maldição dos campeões do mundo que, que nas últimas Copas sempre caem na primeira fase na Copa seguinte. A bruxa anda solta nesse mundial. E pérolas desse tipo.

A debacle jornalística e ética de nossa imprensa, que já se revelou na sua participação decisiva na promoção do golpe de 2016, também se revela nessa cobertura de Copa do Mundo. A imprensa esportiva também reflete a crise vivida pelo país. Grandes jornalistas esportivos, como José Trajano, foram afastados dos órgãos de imprensa em que trabalhavam porque se posicionaram politicamente contra a farsa do impeachment. Se temos um Juninho Pernambucano a se posicionar contra as grandes mazelas do país, que se refletem em nosso futebol, temos dezenas de Ronaldos, fenômenos de ignorância política e de fragilidade na hora de emitir opiniões sobre o que vê em campo. Se temos a qualidade da análise de um Tostão, de um Paulo Vinícius Coelho, temos dezenas de comentaristas que não merecem ocupar as posições que ocupam. A imprensa esportiva não para de levar gols entre as pernas nesse mundial.

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Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos

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