OPINIÃO

Índios do Rio Grande do Norte: vivos e em movimento

Por muito tempo propagou-se a ideia de que não existiam mais índios no estado do Rio Grande do Norte devido ao massacre ocorrido durante a Confederação dos Cariris, ainda no período colonial brasileiro. Essa noção de extermínio total não se sustenta quando analisadas as formas de resistência indígena ao longo da história: muitos povos migraram para outras regiões; se misturaram à população local, por vezes negando sua identidade étnica para evitar perseguições; ou procuraram se isolar da política colonizadora da época.

Nas últimas décadas, amparados pela Constituição Federal Brasileira, diversos povos vêm se reorganizando em busca de sua história e memória, reivindicando com legitimidade uma identidade indígena, bem como construindo cotidianamente as lutas pelo reconhecimento e efetivação de seus direitos específicos. Hoje, 11 comunidades compostas por 7 povos integram o movimento indígena no RN, quais sejam: Sagi-Trabanda, cujo povo se declara Potiguara; Catu, onde se identificam Potiguaras Eleotérios; Amarelão; Serrote de São Bento; Santa Terezinha, Marajó, Açuncena e Cachoeiras, comunidades formadas por um único povo que se denomina Mendonças Potiguaras do Amarelão; Caboclos de Açú, que se afirmam índios Caboclos; Lagoa do Tapará, formada pelos Tapuias da Lagoa do Tapará ou Tapuias Trarairiús; e Lagoa do Apodi, cujos índios se reconhecem Tapuias Paiacús.

Os processos históricos de esbulho das terras indígenas que ocorreram em todo o país conduziram os índios do Rio Grande do Norte à grandes dificuldades econômicas, em virtude da perda de seus territórios tradicionais, dos trabalhos precários e mal pagos aos quais foram submetidos e pela falta de políticas públicas que atendessem às suas necessidades. Além disso, o discurso que permeia o senso comum sobre o “ser índio” difundido nos meios de comunicação e por algumas instituições de ensino, prejudica uma correta compreensão sobre a questão indígena por parte dos gestores públicos e da sociedade em geral. A tipificação museológica da identidade indígena, o índio quinhentista ou seiscentista pensado como “puro”, “autêntico”, “verdadeiro”, associado à compreensão da cultura como estática, parada no tempo, nega o indígena no presente, com uma cultura dinâmica e com múltiplas identidades, o que faz reinar estereótipos e preconceitos cujas consequências às comunidades indígenas vêm sofrendo ao longo dos anos.

Nesse sentido, os índios do Rio Grande do Norte seguem reivindicando, como pautas prioritárias, dentre outras: a demarcação de suas terras tradicionais e a garantia da educação escolar indígena em todos os municípios onde existem comunidades indígenas. Além das articulações e lutas políticas, anualmente realizam ações de fortalecimento e visibilidade indígena, com a construção de festas e feiras de cultura através das quais reafirmam que estão vivos, em movimento e na luta para defender os seus direitos. Nesses eventos, enquanto cantam e dançam o Toré, dão o recado da resistência: “quem não pode com as formigas, não assanha o formigueiro!”.

 

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Allyne Macedo
Allyne Macedo é formada em Direito e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRN. Escreve às quarta-feiras.

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