DEMOCRACIA

Infectologista que atuou sem cobrar cachê em campanha publicitária do Governo do RN diz que faria o mesmo para Álvaro Dias e Bolsonaro

Alexandre Motta é infectologista há mais de 30 anos no hospital Giselda Trigueiro, unidade referência em Natal (RN), e vem atuando na linha de frente do combate a Covid-19 desde o início da pandemia no Rio Grande do Norte. Hábil com as palavras e “bom de vídeo”, segundo o linguajar publicitário, foi convidado para estrelar a campanha de educação sanitária assinada pelo Governo do Estado em emissoras de TV e rádio.

Na maioria dos textos, Alexandre dizia o que costuma afirmar aos pacientes que encontra no consultório ou pelos corredores dos hospitais onde trabalha: dicas de como se prevenir da doença que já matou mais de 600 mil pessoas no Brasil.

– Posso opinar com autoridade nas questões da infectologia e contra o negacionismo. Essa foi a tarefa que me propus e tenho especialidade para falar”, afirmou.

Motta é filiado ao Partido dos Trabalhadores desde os anos 1980 e foi candidato ao Senado Federal em 2018 na chapa da então candidata ao governo do Estado Fátima Bezerra. Por uma questão ética, aceitou o trabalho de garoto-propaganda sem cobrar cachê.

Ainda assim, por conta da ligação com o PT, foi alvo, na quinta-feira (7), da CPI instalada na Assembleia Legislativa que investiga 12 contratos firmados pelo governo estadual durante a pandemia:

– Fiz questão de não receber (cachê) e fiz questão de que isso ficasse gravado nos vídeos. Falei: “bote aí que eu não recebi cachê”. E disse durante o depoimento que eu faria campanha de graça para o prefeito de Natal e até para o presidente, apesar das divergências. Aliás, faria pagando e cumpri meu papel”, disse, por telefone, à agência Saiba Mais.

Alexandre Motta é infectologista há mais de 30 anos e tem expertise para falar sobre o tema / foto: Eduardo Maia

Motta lembra que a campanha publicitária da qual participou começou em dezembro de 2020, num momento em que não havia vacina disponível no Brasil e que a segunda onda da pandemia colocou o país sob alerta:

– A segunda onda começava a se anunciar. Tive acesso aos dados do LAIS que mostravam que a curva começa a ascender em dezembro. E os casos e óbitos pipocaram em março, onde 293 pessoas morreram em uma única semana no Rio Grande do Norte. Esse foi o período da campanha. Se o Governo não tivesse feito (a campanha publicitária), talvez mais mortes teriam ocorrido”, conta.

A comunicação através de vídeos no youtube ou divulgada por outras redes sociais não são novidade na vida de Alexandre Motta. Logo após o golpe contra Dilma Rousseff, em 2016, ele o colega Petrônio Spinelli criaram um programa de entrevistas batizado de “Mortadela ou caviar?”, onde conversavam sobre política com vários convidados.

Além do programa, Motta opinava sobre a política local e nacional em vídeos curtos que repercutiam tanto junto à categoria de médicos como em outros segmentos. Os vídeos caseiros tornaram o infectologista conhecido na cidade, o que derruba a tese da oposição de que a campanha publicitária do Governo do Estado teria o objetivo de projetar a imagem dele:

– Eu não sou um médico desconhecido, fiz vídeos logo quando a covid-19 começou a se alastrar na cidade. Um vídeo em 31 de janeiro de 2020 teve 56 mil visualizações. Em meados de março de 2020 fiz outro vídeo falando dos vários aspectos da doença em que 144 mil pessoas viram. Eu não precisei da campanha pra ser conhecido”, contou.

Antes mesmo da pandemia, Motta era fonte de vários jornalistas em razão da especialidade médica como infectologista. Não foram raras as entrevistas dadas a veículos de comunicação de grande alcance no Estado:

 – Participei de vários programas Bom dia RN, da InterTV Cabugi, para tratar de temas da infectologia, como dengue, zika, leptospirose. Após o surgimento do covid fui entrevistado por diversos programas de TV e rádio. Estive num debate com o presidente negacionista do Sindicato dos Médicos numa rádio local, participei do programa do BG que tem uma grande audiência, e de programas em várias rádios do interior. A alegação de que usei a campanha para me autopromover é mentirosa. Fui candidato ao Senado em 2018 e 242 mil pessoas votaram em mim, ou seja, pelo menos 242 mil pessoas me conhecem”, explicou.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"