OPINIÃO

Inflamados do Brasil, uni-vos!

“Além de dor, dores”, minha mãe costuma dizer com ironia quando entramos naquele espiral de azar, em que nos damos mal em alguma coisa, e depois noutra e noutra. Lembrei-me dessa frase quando pensei na quantidade de brasileiros que moram sozinhos e vão sendo condenados a permanecerem assim até o fim da pandemia, ninguém sabe quando. Não bastassem o medo da morte e do adoecimento grave, assistir à pressão excruciante sobre o indispensável SUS, acompanhar a escalada de morte na televisão às centenas, e a fome de quem não pode mais trabalhar aos milhares, a incerteza sobre o futuro, a sensação de estar à deriva em um Estado que vem negando sistematicamente a ciência e observar o fascismo se insinuando dia a pós dia, também estamos sofrendo, e bastante, com a solidão.

A solidão dói. E eu não estou falando em um sentido metafórico, poético. Os circuitos cerebrais do sofrimento mental de fato se encontram em algum momento com aqueles que vêm de um corte acidental, por exemplo. A dor geralmente começa com uma agressão a um órgão, como a pele ou o estômago, viaja por feixes nervosos corpo acima e vai parar em locais específicos do cérebro, quando, de fato, começa a doer. Lá os neurônios “conversam” entre si, avaliam a dor e decidem como respondê-la. Participam dessa conversa estruturas que darão um afeto (na maior parte das vezes) negativo àquela sensação, o que nos ajuda a gravar que aquele ambiente ou situação não devem ser revisitados.

Essas mesmas estruturas (quem quiser conhecê-las melhor, buscar “ínsula anterior” e “região dorsal do cíngulo anterior” no google) são ativadas quando nos sentimos sós por algum tempo, ou rejeitados ou excluídos. E também quando reagimos com nojo, repulsa e aversão, inclusive diante de uma notícia ruim na tevê. Por isso a expressão “dor de cotovelo”, que o compositor Lupicínio Rodrigues tão bem popularizou, não é de todo alegórica. Embora essas articulações não doam propriamente quando se leva um fora (a menos que você vá afogar suas mágoas apoiado em uma mesa de bar por horas e horas, de onde provavelmente veio a expressão), há um sofrimento que é semelhante, e isso ocorre não apenas com a sensação subjetiva da dor (infelizmente não aprendemos de forma tão eficiente a evitar o sofrimento mental quanto na dor física, o que pode nos meter em uma séria sucessão de dores de cotovelo, mas aí só com Lupicínio mesmo).

Quando sofremos uma lesão, o organismo produz células inflamatórias para reparar a estrutura afetada. A mesma coisa acontece com o cérebro em sofrimento: ele inflama. Esse tipo de resposta modifica a forma como alguns neurônios se comunicam, aumentando ou diminuindo a produção de neurotransmissores, receptores e transportadores, além de também interferir na produção de substâncias importantes para a sobrevivência das células nervosas. Essas mudanças grosso modo têm a função de preparar o indivíduo para sobreviver em um ambiente hostil, quando ele deve ficar em estado de alerta o tempo todo. Mas se isso acontece de maneira continuada ao longo do tempo, as modificações funcionais e anatômicas cerebrais são tão importantes que ficam visíveis em um exame de imagem como a ressonância magnética funcional, e podem causar transtornos como a depressão.

É claro que o sofrimento ou a depressão não são explicados apenas por uma cascata inflamatória, mas certamente esse processo está implicado em suas origens. E é claro também que nem todo mundo responde da mesma forma à solidão e em tempos de pandemia ela nem é a principal causa de sofrimento mental, mas é importante percebê-la e amenizá-la. Nós somos seres gregários, e passar vários meses trancados em casa sem mais ninguém para dividir o dia pode de fato alterar a neuroquímica cerebral. Por isso, conecte-se. Fale regularmente com seus vizinhos. Use as redes sociais para acessar colegas de trabalho, família, amigos. Procure saber como estão. Fale de si. Ajude-os, se puder. Pode parecer estranho, mas enquanto os abraços e beijos não vêm, chamadas de vídeo equivalem a calçar um tênis confortável para diminuir o impacto e evitar calos ao longo de uma longa caminhada forçada. E têm a vantagem de proteger o outro também.

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Luana Ferreira
Luana Ferreira é médica e jornalista. Autora de “Esse teatro é do povo! Uma biografia de Jesiel Figueiredo”.

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