OPINIÃO

Invisíveis

Nestes últimos meses, ando percorrendo várias comunidades de Natal, principalmente nas áreas da zona Leste e Norte, lugares muito populosos e localizados em áreas bastante movimentadas. Nessas áreas por onde passam diariamente centenas de pessoas, quase ninguém consegue mais enxergar os diversos problemas acumulados pelos moradores dali. É difícil imaginar que dentro das periferias da grande Natal inteira existam as mesmas dificuldades, mudando apenas o endereço.

É difícil imaginar que nos dias de hoje ainda encontramos jovens que em pleno desenvolvimento da sua vida sequer sabem ler ou escrever, milhares de famílias morando em casas amontoadas sem nem uma rua para seus filhos brincarem, restando apenas os becos da comunidade e os córregos de esgoto a céu aberto, onde mesmo assim algumas crianças brincam sem nem perceber o risco que correm.

Pessoas idosas abandonadas morando sozinhas ou doentes sem condições nem sair de casa, muitas vezes recebendo ajuda dos vizinhos, pessoas com medo e desamparadas, milhares de crianças comprometidas com uma realidade difícil e violenta. São pessoas invisíveis, em sua maioria pobres, trabalhadores formais ou informais, muitos desacreditados de uma possível melhora da situação, pois há muito tempo as famílias não têm direito ao básico do básico.

Nossos políticos deixaram falir todo o sistema público de serviços, começando pela saúde e educação, setores fundamentais para o desenvolvimento de uma sociedade. Não se cuida dos mais velhos, nem se educa os mais novos. O nosso desenvolvimento social não acompanha mais o crescimento populacional, onde uma maioria cresce desgovernada, sendo abatida pela violência urbana diária que, com seus números de guerra, não assustam mais tanto a sociedade nem o Estado, que também prática a violência como solução para alguns de seus problemas e nem percebe que milhares de pessoas, em meio ao fogo cruzado diário das periferias, só querem sobreviver para criar seus filhos.

Nessas andanças, cheguei a conversar com várias dessas pessoas e escutando seus depoimentos, um deles me chamou a atenção. Um senhor de 56 anos de idade, que se disse analfabeto, percebeu e falou do nosso momento político, disse entender bem o que está acontecendo e até mesmo apontou simples soluções. Alternativas que muita gente, com vários diplomas, não querem ou não conseguem enxergar.

Temos um grande problema visível e vivenciado, bastante debatido e pouco solucionado, às vezes amenizados com ações paliativas, meras maquiagens sociais. O nosso problema gera lucro e muito dinheiro, que sustenta boa parte da corrupção. É esse problema que cria os invisíveis e sem opiniões. Mas sempre vivos e operantes, sem medo de tentar ser feliz todos os dias ou simplesmente se contentar com a vida que recebeu, mesmo violentados diariamente e, ao mesmo tempo, sendo culpados pelas mazelas sociais, julgados como violentos.

Somos a maioria onde poucos conseguem falar, somos a maioria que não é vista, mas todos os dias somos lembrados.

 

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Miguel Carcará
Miguel Carcará é grafiteiro, educador e rapper. Escreve aos sábados.

1 Comment

  1. Importantíssimo escrever sobre o que realmente ocorre nas periferias e de como somos esquecidos pelas mesmas. Do ponto de vista de que os demais da sociedade induzem a própria periferia a ficar contra ela mesma.
    Mesmo sabendo que os agentes sociais do hip-hop fazem uma enorme diferença nas vidas dos pequenos e jovens periféricos. Resistir até o fim, e ser eternizado na mente das comunidades.

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