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Invisíveis: Estandarte leva para teatro feminicídio contra 5 mulheres de Itajá

O diretor teatral Lenilton Teixeira estava a caminho de mais um ensaio do grupo Estandarte de Teatro quando leu num jornal da cidade, em julho de 2015, a notícia sobre o assassinato de cinco mulheres no município de Itajá (RN), distante 200 quilômetros de Natal.

O ensaio que Teixeira dirigiria dali a alguns minutos contava a história do desaparecimento de cinco crianças do bairro Planalto, entre 1998 e 2001. Na época, o caso ganhou repercussão nacional e até hoje as famílias não têm notícias sobre o paradeiros dos garotos raptados de dentro de casa.

Imerso no espetáculo sobre as crianças do Planalto, Lenílton enxergou no homicídio das cinco mulheres de Itajá uma relação com o espetáculo que o Estandarte estrearia em pouco tempo. Nos dois casos, para ele, estava explícita a invisibilidade social.

O comportamento da mídia foi outro fato que chamou a atenção do grupo. A imprensa tratou logo de taxar as mulheres como “prostitutas”. No mesmo período, o fechamento de uma rinha de briga de galo pelo Ibama, além dos sacrifícios dos animais, ganharam mais destaque que os assassinatos brutais das cinco mulheres no interior do Rio Grande do Norte.

Três anos depois de levar para os palcos o drama das famílias do Planalto na peça Desaparecidos, o grupo Estandarte de Teatro conta a história da tragédia das mulheres de Itajá. Mulheres Invisíveis é o segundo espetáculo da trilogia Xs Invisíveis apresentado pelo grupo. A estreia está prevista para a última semana de agosto.

Para bancar os custos da peça, o Estandarte lançou uma campanha de financiamento coletivo por meio do site catarse e contam com o apoio do público. A verba arrecadada vai custear as despesas com figurino, música, sonorização, cenário, material gráfico e a iluminação. Orçado em R$ 8.814, a campanha não inclui cachê dos atores nem o trabalho de direção, sob a responsabilidade de César Ferrario. A campanha começou em maio e segue até 22 de julho. Para colaborar acesse aqui

Segundo Lenílton Teixeira, assim como ocorreu com as famílias do Planalto, o Estandarte viu a necessidade de dar voz às mulheres para que a sociedade não esqueça o que aconteceu:

– Na realidade, fomos meio atropelados pelo acontecimento. Eu estava indo para o ensaio do Estandarte quando vi a matéria no jornal. Levei para o grupo e percebemos que tinha algo que ligava as crianças do Planalto e as mulheres de Itajá. Nos dois casos “são pessoas invisíveis”, aquelas que a sociedade não quer ver. Aí sentimos que era importante dar voz a essas mulheres para que não caiam no esquecimento.

Cartaz de divulgação do espetáculo “Mulheres Invisíveis”

Além de contar a história pelo viés do feminicídio, o Estandarte vai fazer a “autópsia” dos corpos no palco e analisar o papel da imprensa na tragédia. Na época, palavras como “cabaré”, “bordel”, “prostitutas” e “garotas de programa” foram exaustivamente usadas para qualificar as vítima.

A narrativa refaz o encontro de cinco mulheres para comemorar a vida até serem mortas com tiros na cabeça. Na sinopse, o Estandarte a revelar no palco os traços da barbárie humana:

– Se a gênese da palavra “autópsia” diz respeito a “ver por si mesmo” e que sua manifestação médico-legal orienta-se pela construção de um olhar científico sobre um corpo para o desvelamento de indícios de sua própria morte, para o Estandarte, trata-se de um olhar cenicamente imaginativo que, ao reinventar a história destas 5 mulheres assassinadas, procura revelar os próprios traços da barbárie humana. Ao mesmo tempo, essa mirada explora vestígios e procura juntar pedaços dilacerados de sonhos e itinerários interrompidos destas mulheres, cujas narrativas possíveis não cabem, simplesmente, na designação de prostitutas.

Relembre o caso

Quatro homens encapuzados entraram num prostíbulo dia 15 de julho de 2015 e mataram as 5 mulheres, com idade entre 17 e 32 anos, que estavam na casa, todas com tiros na cabeça. Segundo a polícia, apenas uma das vítimas era alvo dos bandidos. As demais foram mortas porque teriam presenciado o assassinato.

Dois homens foram presos suspeitos de serem os mandantes do crime, mas apenas o agricultor Isaac Mendonça de Lucena foi denunciado pelo Ministério Público por homicídio qualificado por motivo torpe e por impossibilidade de defesa das vítimas. O outro suspeito foi liberado por falta de provas.

Dados do Monitor da Violência a partir de informações coletadas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública informam que 4.473 mulheres morreram em 2017 no Brasil. No Rio Grande do Norte, segundo o Observatório da Violência Letal Intencional, apontam que, no mesmo período, 154 mulheres foram vítimas de feminicídio.

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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